Eleição: guerra aberta, caos e surrealismo

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Há duas guerras abertas no início desta campanha eleitoral.

Uma delas se arrasta há alguns bons anos: a máquina de moer gente composta pelo oligopólio midiático e pelo Judiciário/MP versus Lula e o PT.

Abundam, nos últimos dias, manchetes, matérias e colunas na grande mídia destinadas a achincalhar a candidatura de Lula, cujo registro foi consumado ontem.

Miriam Leitão, por exemplo, usa argumentos positivamente ridículos para criticar o artigo de Lula no New York Times. Vou citar apenas um deles. Lula escreveu que foi condenado com base no depoimento de uma testemunha. Miriam diz que não foi uma, mas várias. Eu conto ou vocês contam para a Miriam que palavra de testemunha – quantas forem – desacompanhadas de provas não valem – ou não deveriam valer – nada em um processo penal no mundo civilizado?

Sérgio Moro não poderia ficar de fora dessa macabra dança golpista: ele adiou o depoimento de Lula no caso do sítio de Atibaia. Seria em setembro, antes da eleição, portanto. Moro jogou para novembro. “A fim de evitar a exploração dos interrogatórios, seja qual for a perspectiva”, escreveu o sensatíssimo magistrado.

Das duas, uma. Ou Moro é um avoado que se deu conta apenas agora que havia marcado o interrogatório em uma data extremamente próxima às eleições, ou o juiz teve que mudar de estratégia – sim, temos um juiz todo-poderoso que atua politicamente e deixa transparecer suas estratégias – ao se dar conta de que, ao invés de deteriorar a imagem de Lula, um depoimento às vésperas da eleição a alavancaria, já que a condenação e a prisão não abalaram as intenções de voto no petista e ele está impedido – grotescamente, sem base legal alguma – de se comunicar com a população.

Moro é pueril, autoritário, parcial, deslumbrado e muitos outros atributos nada louváveis. Avoado, de jeito nenhum.

O MP também deu sua tradicional contribuição no ataque aos direitos políticos de Lula, por meio de Raquel Dodge, diligente funcionária do golpe que pediu ontem (mesmo dia do registro!) ao TSE a impugnação da candidatura de Lula.

Lula e o PT, por sua vez, seguem com seu plano – um tanto quanto kamikaze – de esperar o TSE indeferir a candidatura Lula para somente então substituí-lo por Fernando Haddad. A estratégia é esticar a corda até o limite para, assim, gerar máximas comoção e transferência de votos de Lula para Haddad.

Os riscos são altos: pouco tempo para a transferência dos votos; o fato de Lula estar virtualmente incomunicável; a chance de o TSE chutar o balde e impugnar a chapa Haddad/Manuela com uma justificativa qualquer (alguém duvida?); a alta rejeição ao partido. Lula e o PT têm alguns trunfos, contudo: a popularidade absurda de Lula; a drástica deterioração das condições de vida da população após o golpe; o alto patamar histórico de votos do partido em eleições presidenciais; o fato de o PT, em que pese a alta rejeição, permanecer sendo, disparadamente, o partido preferido dos brasileiros (19% das menções segundo o Ibope de março/2018).

A ver o que prevalecerá, os riscos ou os trunfos da estratégia petista.

Há alguns meses atrás, Ciro Gomes respondia, quando perguntado sobre o assunto, que a candidatura de Lula não seria boa para o país porque o debate giraria em torno da figura do ex-presidente, ao invés de tratar dos graves problemas do país.

Ciro merece críticas por não ter defendido de forma veemente o direito de Lula ser candidato – em que pese sempre ter afirmado que a condenação é injusta -, mas o seu ponto está se mostrando correto. Apesar de estarmos passando por uma explosão de desemprego e miséria sem precedentes, os meios práticos de superarmos esse verdadeiro desastre ficam relegados, muitas vezes, ao segundo plano do debate.

Ciro está, ao menos neste momento, alheio à guerra. Ontem ele participou de uma sabatina do Correio Braziliense. Assisti a um trecho e recomendo fortemente que os leitores deem uma olhada. Dá gosto ver Ciro desancar, com propriedade, os repórteres com inclinações liberais/mercadistas. O pedetista subiu o tom contra Bolsonaro, referindo-se a ele como “boçal”, “despreparado” e “câncer a ser extirpado”.

A outra guerra aberta se dá entre Alckmin e Bolsonaro.

O Estadão noticiou há alguns dias que Alckmin usará boa parte das suas inserções no rádio e na TV para atacar Bolsonaro, com uso de locutor em off e sem menção ao candidato do PSDB. A ideia é tentar fazer com que os votos ideológicos da direita voltem para o ninho tucano e, ao mesmo tempo, “preservar a imagem de Alckmin”, eufemismo para “esconder o picolé de chuchu”. Deveras promissor um candidato que ganha ao não aparecer muito, não?

O PSDB terá que suar sangue para roubar votos do ex-capitão, que atingiu um patamar alto (em torno de 20%) e consistente (seus índices têm variado quase nada) de intenção de votos nas pesquisas. A radicalização do sentimento antipetista – alimentada pelo próprio PSDB – não ajuda o insosso Alckmin na mesma medida em que fortalece o histriônico Bolsonaro.

Para completar o quadro caótico, reparem nesses dois bizarros acontecimentos, divulgados com toda a seriedade do mundo pela imprensa: Kim Kataguiri e Alexandre Frota pediram ao TSEa cassação da candidatura de Lula e Cabo Daciolo não compareceu a uma entrevista que daria na Record para permanecer orando e jejuando em um monte.

Eis o nível de surrealismo ao qual a política brasileira foi lançada.

Pedro Breier, O Cafezinho
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