Marina de Verdade: O ‘soft’ golpe de maio

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Marina de Verdade
Marina de Verdade explica posições da presidenciável do PSB que é distorcida pela mídia tradicional

"Eu achava a senhora inteligente, até descobrir que é evangélica..."


Já pensou quanto preconceito tem nessa frase?

Existe uma grande diferença entre opinião pessoal e decisões políticas. A atitude democrática é saber separar as coisas.

Marina Silva é evangélica. E tem o direito de ser - Assim como católicos, ateus, espíritas, seguidores de religiões de matriz africana, e todos os demais. Mas antes de tudo é uma defensora da Democracia e do Estado Laico.

Conheça os posicionamentos dela antes de julgá-la. Você vai se surpreender.

E só para constar, a maioria dos eleitores de Marina não são evangélicos. A maioria dos evangélicos votaram na Dilma na úlitma eleição, veja esse artigo abaixo que explica melhor.



O ‘soft’ golpe de maio


José Eli da Veiga, Rede

É falso que o eleitorado de Marina Silva seja muito evangélico. Menos de 15% de seus quase 20 milhões de votos no primeiro turno de 2010 foram de evangélicos. Tão somente um décimo do conjunto do eleitorado evangélico optou por Marina, enquanto mais de um terço votou em Dilma, quase outro terço em Serra e um sétimo invalidou o voto. Marina teve mais apoio nas minorias ateia e espírita do que em qualquer das outras cinco divisões por crença.

Isso só surpreende quem ignora que o grosso do voto evangélico é orientado por lideranças das mais pragmáticas. Sempre de olho em boquinha no governo seguinte, bispos e pastores mostram-se tarimbados pelegos ao negociar com os favoritos ao segundo turno. Em 2010, os calculistas Serra e Dilma violentaram suas próprias convicções sobre causas libertárias e igualitárias para barganhar votos evangélicos. Nada houve de fortuito, portanto, no fato de a atual base governista ter feito o diabo para viabilizar o controle evangélico da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, pois o Ministério da Pesca é merreca como retribuição ao forte apoio desse nicho de 22% do eleitorado total.

Se nada pode esperar dos evangélicos, qual será, então, a base de apoio dessa Rede Sustentabilidade, novo partido político em formação que quer reapresentar Marina em 2014? Difícil saber, pois é novidade bem similar a tendências emergentes do tipo “Partido del Futuro”, na Espanha, ou “Movimento 5 Stelle”, na Itália, que refletem, de forma ainda muito confusa, o inevitável esgotamento da socialdemocracia, esse bem sucedido fenômeno do século XX no qual se abrigam Dilma, Aécio e Campos.

Tal preponderância do projeto socialdemocrata se justifica pela proeza histórica que realizou nas nações que mais avançaram. Tão intensa foi a expansão da capacidade produtiva decorrente da simbiose entre movimentos trabalhistas e projetos políticos semelhantes aos do PT, PSB e PSDB, que boa parte dos seres humanos passou do reino da necessidade ao da afluência, com educação, cultura, opções de vida e escolhas antes inimagináveis. O “Estado de bem-estar social” foi a grande obra da socialdemocracia que não chegou a beneficiar a maioria dos que vivem no Sul.

Mas agora há dois obstáculos à continuidade desse esquema. Estão obsoletos os arranjos que garantiram recordes de aumento da produtividade, particularmente durante o quarto de século 1948-1973. Além disso, tão retumbante sucesso passou a solapar os próprios fundamentos biogeofísicos da prosperidade, o que traz muitas dúvidas sobre o futuro do desenvolvimento humano, mesmo nas mais sólidas e ricas democracias do primeiro mundo. Além de exigir muita governança global, o choque entre o agora fugaz crescimento econômico e a obrigação de maneirar seus impactos sobre a biosfera demanda inédita simbiose entre movimentos sociais e projetos políticos.

Daí ser profundamente reacionária, além de antidemocrática, qualquer atitude que dificulte o nascimento daquilo que poderá ser equivalente neste século ao que foi a socialdemocracia no século passado. Como faz a da atual coalizão no poder ao pretender silenciar a voz da Rede mediante expediente casuístico que passará à história do Brasil como o “soft” golpe de maio.

Nota da Rede: José Eli da Veiga, 65, é professor dos programas de pós-graduação do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP) e do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ). Página: www.zeeli.pro.br.
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