Joaquín El Chapo Guzmán é preso de novo, anuncia México

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Foto: Henry Romero, Reuters
El Chapo ao ser preso em fevereiro de 2014. Foto: Henry Romero, Reuters
As autoridades mexicanas anunciaram a captura de El Chapo. Mas cartel de Sinaloa, a organização liderada por Joaquín Guzmán, o homem que humilhou o Governo do México ao escapar de uma prisão de alta segurança a 11 de julho, tem mais delegações no estrangeiro do que qualquer multinacional do seu país.

Margarito Flores, de 34 anos, levantou-se da cadeira antes de ouvir a sentença por tráfico de droga, num tribunal federal de Chicago, a 27 de fevereiro de 2015. Disse três frases: «I'm ashamed. I'm embarrased. I'm regretful [Estou envergonhado. Estou embaraçado. Estou arrependido].» Margarito e o irmão gémeo, Pedro, lideravam uma das redes de narcotráfico mais importantes dos Estados Unidos, o principal consumidor de drogas do mundo. Controlavam a entrada de 80% de cocaína, marijuana e cocaína de Chicago e a sua distribuição em outras oito cidades.

Margarito e Pedro, filhos de mexicanos nascidos no Estado do Illinois, trabalhavam para o poderoso cartel de Sinaloa, uma organização criminosa que funciona como uma multinacional. Se este cartel fosse uma empresa, teria mais delegações que qualquer empresa mexicana. Está presente em 17 estados mexicanos e 54 países, mais do que multinacionais como a América Móvil (19) ou a Cemex (50).

Tradição e olho para o negócio

O primeiro conselho de qualquer consultor a uma empresa em expansão é definir uma missão, uma identidade e uma história que explique a sua razão de ser. A génese do cartel remonta à hermética serra de Sinaloa, onde o cultivo de ópio e marijuana se faz há mais de 100 anos. De Miguel Ángel Félix Gallardo o padrinho e fundador do cartel de Guadalajara até Joaquín El Chapo Guzmán, dezenas de capos nasceram nestas montanhas. São os herdeiros genuínos dos contrabandistas que, nos anos 30 e 40 do século XX, passavam droga para o outro lado da fronteira, para satisfazer os clientes norte-americanos.

Enquanto outros grupos criminosos apostavam na extorsão e nos sequestros, o cartel de Sinaloa permaneceu fiel à sua principal missão. É o líder indiscutível do mercado nos EUA. Domina 30% do setor da marijuana e da cocaína, e mais de 60% da heroína. As suas vendas ultrapassam os 3200 milhões de dólares anuais (quase 2900 milhões de euros), de acordo com o livro O Mal Menor da Gestão das Drogas, escrito por um grupo de académicos mexicanos.

A sua situação geográfica é outro exemplo de visão estratégica. Fica perto de Jalisco, o antigo berço do primeiro grande cartel mexicano, e as suas redes estendem-se ao longo da costa do Pacífico, até aos estados de Michoacán e Guerrero, os grandes produtores de ópio e marijuana. O cartel controla, além disso, rotas-chave para os Estados Unidos (Tijuana, Juárez, Mexicali) que garantem o acesso ao primeiro grande mercado: a Califórnia. No seu extenso litoral de Sinaloa, de 656 quilómetros, estão os portos que ligam o México ao Oeste dos EUA, desde o século XIX. A ligação do grupo ao mar é a chave do seu crescimento internacional.

Tentáculos em todos os continentes

As suas redes são agora globais, mas a forma como tudo se fez apareceu a conta-gotas em pequenas notícias isoladas. A 31 de março de 2011: «Três supostos elementos do cartel de Sinaloa enfrentam a pena de morte na Malásia.» A 3 de fevereiro de 2014: «Avião destruído na Venezuela operava para o cartel de Sinaloa.» A 7 de maio de 2014: «O cartel de Sinaloa contrata aos montes nos EUA.» A lista podia continuar. Um meio de comunicação australiano revelou que a organização chegou à Oceânia graças aos seus vínculos com a N'drangheta, a máfia calabresa, e a Yakuza, a máfia japonesa. No Canadá, terá celebrado uma parceria com os Hell's Angels, segundo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. E é preciso ainda ter em conta uma outra aliança fundamental: a China, ilustrada pelo misterioso caso de Zhenli Ye Gon, um empresário farmacêutico que, segundo as investigações policiais, se transformou no principal fornecedor do cartel de Sinaloa no que toca ao fabrico de metanfetaminas.

Este indivíduo foi detido em casa, com mais de 200 milhões de dólares, em 2007, e viria a ser depois deportado para os EUA, encontrando-se agora na penitenciária de Orange, na Virgínia.

A organização funciona como um conjunto de grupos criminosos, um cartel empresarial, segundo um relatório da DEA, a agência norte-americana antidroga.

Joaquín El Chapo Guzmán seria o presidente do Conselho de Administração, o CEO; Ismael El Mayo Zambada e Juan José Esparragoza Moreno, El Azul (dado como morto em 2014), os chefes de operações. Abaixo há uma estrutura com fortes laços familiares.

«A política de recursos humanos combina a parte familiar, que lhes assegura um forte sentido de lealdade, com a captação de talento, como engenheiros para os túneis ou químicos para as drogas sintéticas», aponta o investigador David Pérez Esparza, da University College de Londres.

Os camponeses, empresários, funcionários e assassinos que trabalham para o cartel contam-se em milhares. E completam uma estrutura empresarial com produtores internacionais de cocaína na Colômbia, na Bolívia e no Peru, ou com distribuidores como os gémeos Flores de Chicago.

Outra analogia perversa com o mundo empresarial é a sua capacidade de inovação.

«Quando em alguns estados dos EUA começaram a permitir a produção e a venda legal de marijuana, El Chapo percebeu que isso poderia pôr em causa o negócio.

Como reagiu? Como faria qualquer empresa, inovando. O cartel decidiu apostar nas drogas sintéticas, mais rentáveis e onde a concorrência é quase nula», acrescenta Pérez Esparza. Face a uma previsível queda na procura de marijuana, onde todos os cartéis têm interesses, La Federación como também se chama ao grupo de Sinaloa deslocou os seus tentáculos para outras substâncias. Daí a sua mudança de estratégia ao produzir heroína, muito menor no México se comparada com outros países, ou os laboratórios de metanfetaminas, onde alimenta um rentável e fácil intercâmbio com as máfias asiáticas que lhe fornecem a efedrina necessária para produzir a droga. O cartel de Sinaloa controla hoje 70% do mercado de metanfetaminas nos Estados Unidos.

Macabra campanha de marketing

A inovação também se aplica à logística e à distribuição. Os seus sistemas de transporte evoluíram desde o clássico mercado negro por via terrestre até aos túneis de alta engenharia. Os 3185 quilómetros de fronteira entre o México e os EUA são cortados por mais de 170 passagens subterrâneas que parecem tocas para toupeiras. A tudo isto somam-se ainda os contentores, os navios, os submarinos cada vez menos artesanais, e uma potente frota de aviões.

A segunda fuga de El Chapo de uma prisão de alta segurança colocou a sua fama ao nível de uma estrela do futebol ou do rock. Dedicam-lhe músicas, memes na internet e chapéus e T-shirts com a sua foto.

O narcotraficante mais procurado pelo FBI e pela Interpol tornou-se uma marca.

Com enorme sucesso, graças à macabra campanha de marketing de uma empresa líder em atividades ilegais que, para chegar ao topo, travou uma luta sangrenta com os seus concorrentes. Só no México e na última década, o saldo ascende a 80 mil mortos e 30 mil desaparecidos.

Veronia Calderón e David Marcial Péres, Visão
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