Pato Manco e Decorativo. Assim que é Temer

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Pato Manco é uma expressão que surgiu nos Estados Unidos (lame duck, em inglês) para designar aquele presidente da República, governador ou prefeito que vive o período entre a eleição e a posse do seu sucessor, especialmente quando este é seu adversário, ou não foi eleito com seu apoio. É uma fase melancólica, porque todas a atenções estão voltadas ao novo titular, que assumirá em breve. O governante que se despede perde toda a importância e, nos EUA e em qualquer parte, fica limitado a medidas sem maiores consequências – talvez a mais importante delas seja dar o indulto de Natal e presos…

Michel Temer ainda não está na fase pós-eleitoral, nem algum de seus adversários foi eleito (é inevitável que o seja, já que nenhum postulante da direita quer seu apoio, e os de esquerda, logicamente, sequer o reconhecem como presidente). Porém, como o Brasil é a terra das jaboticabas (que só existem nesta terra varonil), Temer conseguiu antecipar seu período de “pato manco” em vários meses.

É uma trajetória inédita na linha folclórica da nossa História política, aquela em que não despontam atos de heroísmo ou de grandeza administrativa, mas na qual se narram episódios quase hilários, como a eleição de um rinoceronte no Rio de Janeiro, ou do Macaco Tião a vereador de São Paulo.

Michel Temer é impotente! Menos de dois anos depois do golpe parlamentar-judicial-midiático-imperialista de 2016, Michel Temer tornou-se um títere nas mãos de seus ex-mentores.

Publicamos:
  • Boaventura de Sousa: passo-a-passo para a esquerda

  • Honorato Fernandes: A instabilidade é contra o povo

  • Depende de comprar deputados no atacado e no varejo, para escapar a um “impeachment” (desta vez, com crimes de responsabilidade).
    Depende da procuradora-geral que nomeou, para que novas denúncias não prosperem. Depende do general Sérgio Etchegoyen , para que os militares ainda lhe batam continência, irritados (parte deles, ao menos) com a entrega da soberania nacional ao estrangeiro, em vendas suspeitíssimas.

    Depende da Globo, que ora tenta impor um sucessor “prá já” (quando o denuncia e estimula candidaturas prontas para assumir o lugar, do tipo Rodrigo Maia), mas que alivia a pressão quando um dos Marinho lhe concede uma audiência e sai com mais verbas para a emissora. Silvio Santos, que ninguém pode chamar de bobo, também leva sua fatia e ajuda Temer a fingir que iria cumprir a encomenda do “mercado”, qual seja, a entrega da Previdência Social aos bancos nacionais e estrangeiros (como sabemos, bancos adoram comprar sistemas falidos, não é?)

    Os demais “patos mancos”, porém, tinham uma vantagem sobre Michel Temer: raros deles estavam ameaçados de irem para cadeia tão logo deixassem os cargos. Os processos contra Temer são muitos, sobre crimes anteriores ao mandato (e esses estão suspensos enquanto ele tiver a imunidade que o golpe lhe deu) e muitos serão abertos a partir dos crimes que cometeu nesse curto espaço de usurpação.

    É uma triste sina para um político medíocre, que só existiu sob as asas honestas de um Franco Montoro, de um Mário Covas, de um Ulysses Guimarães, no antigo MDB e no PMDB. (Sobre a vilania da atual quadrilha trocar seu nome pelo da corajosa frente anti-ditadura que foi o MDB, extinto em 1979, tratarei em outro texto).

    Afinal, foi ele mesmo que, em 7 de dezembro de 2015, enviou aquela carta a presidenta legítima Dilma Rousseff, que introduziu com a citação latina: “Verba volant, scripta manet”, que ele teve a gentileza de traduzir para sua companheira de chapa e sua vítima: “As palavras voam, os escritos ficam”. Na missiva, que era dizia ser pessoal mas horas depois estava em toda a mídia, com a natural prioridade para a Globo, ele descreveu-se e ao seu papel: “Passei os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo” (…) “Perdi todo o protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo”.

    Na histórica carta do conspirador (…”scripta manent”…), Michel Temer queixa-se das “desfeitas” feitas pelo governo Dilma a seu companheiro Eliseu Padilha, a última das quais a não-nomeação de um indicado do então ministro para dirigir a Agência Nacional de Aviação, “um nome com perfil técnico” e lamenta ainda que Eliseu teve que sair “por que faz parte de uma suposta ‘conspiração”! Ora, que reconhecimento da clarividência de Dilma!

    O então vice protesta ainda contra a demissão do ministro da Aviação Civil, Moreira Franco “que fez um belíssimo trabalho elogiado na Copa do Mundo. E (a presidenta) sabia que era uma indicação minha”. Hoje o Brasil todo sabe que Moreira Franco, novamente ministro para escapar da cadeia, é o famoso “Angorá” na lista de recebedores de propinas da Odebrecht e foi citado 34 vezes só na delação do ex-vice-presidente da construtora, Cláudio Mello Filho. Aliás, o mesmo delator mencionou, na frente do juiz Moro, o próprio Temer, Por 43 vezes!. Disse coisas interessantes sobre Moreira Franco, como a frase da página 28 de seu depoimento: “Acredito que há uma interação orquestrada entre ele ( ‘Angorá’) e Eliseu Padilha para captação de recursos para o seu grupo do PMDB”.

    Para Mr. Moro (perdoem-me o tratamento a ianque, é que o juiz prefere ser assim chamado nos EUA, onde residirá em breve) essas menções a Moreira Franco, Eliseu, Temer, “não vinham ao caso”. E para o usurpador, tais denúncias só aumentaram a meritocracia de seus amigos, colegas de partido e (não tenho provas, só convicção) sócios. Tanto que os transformou em ministros depois de tudo isso. Nem Gilmar Mendes, que proibiu a nomeação de Lula para o Ministério, abriu a bocarra – ele, tão falastrão e ético!

    Pato Manco e Decorativo

    Conclusão: o destino do pequeno político de 60 mil votos, que criou asas traindo Montoro, Covas, Quércia, Serra e todos os que em algum momento incauto, lhes deram abrigo, termina a carreira como o maior traidor da História, depois do que fez contra Dilma. Temer deve estar tomando cafèzinho frio no Palácio (nem as copeiras e garçons respeitam um pato tão manco…).

    Temer é o pato manco mais decorativo da História.

    Antônio Barbosa Filho, Blog do Miro
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