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Tasso: Quando o Natal se restringe a atividades corriqueiras...

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Tasso Assunção
Tasso, da Academia Imperatrizense de Letras

Natal e reflexão


Tasso Assunção

Nada de errado em comer bem, receber presentes e comemorar, mas, quando uma data histórica como o Natal se restringe a atividades corriqueiras, meramente intensificadas, desprovidas do substrato da reflexão, a celebração se reveste, lamentavelmente, da futilidade própria do consumismo e do entediante cumprimento de convenções sociais.

Nessa advertência consiste o foco dos questionamentos formulados e reformulados, nos últimos anos por meio da “Ciranda” virtual, pelo abalizado professor José Geraldo da Costa, uma das mentes crítico-pensantes dotadas de rara lucidez nesta malfadada plaga tocantina, caracterizada pela incultura e o mercantilismo, como de resto o é a Terra Brasilis.

Outro raro “imperatrizense” dotado do lastro cultural necessário a uma apreensão lúcida e ponderada da realidade era o filósofo e sociólogo Vito Milesi, que, em brilhante artigo enriquecido a um só tempo por lirismo e reflexão, lamentava a “tendência paganizante” da atualidade, ao discorrer sobre as origens e a evolução do consagrado evento cristão.

No entanto, antes que se confunda reflexão com superstição, é bom que, lançando mão de fatos históricos, desmistifique-se a origem da data natalina, proveniente de uma combinação da proibição do cristianismo no primeiro século da era atual com o risco que representava, no Império Romano, abster-se de festejar o “Dies Solis”, dedicado ao Deus Sol.

Celebrado desde o sexto século antes da era cristã, por decreto do rei Sérvio Túlio (578-534 a.C.), em meados dos anos cinquentas a.C., a data passou a se denominar “Dies Natalis”, em alusão, na verdade, ao nascimento do Deus Sol, mas, cerca de um século depois, atribuída, secretamente, pelos cristãos à luz que lhes iluminava a fé, o mártir Nazareno.

De fato, não se sabe ao certo a data do nascimento de Jesus, em Belém da Judéia, de forma que o 25 de dezembro se tornou a data comemorativa de seu “Dies Natalis” em virtude do expediente a que recorreram os primeiros cristãos para camuflar sua adoração ao sábio que julgavam seu Salvador, a verdadeira fonte de iluminação do espírito humano.

Contudo, como as celebrações e rituais não se constituem de nada mais que formalidades simbólicas destituídas de efetiva significação, verifica-se hoje uma inversão em que o Natal cristão retoma as características da celebração pagã que havia nos primeiros séculos da era atual, embora já não se cultue o “Dies Solis” dos patrícios e plebeus de então.

Dessa forma, vai se esvaziando o Natal, paulatinamente, de seu conteúdo histórico e religioso, transfigurando-se em mera festividade já nem mesmo tão familiar, efeméride privilegiada em que se podem cometer excessos de consumo, ou, como já denunciava o sereno Vito Milesi, “enfeite de uma vida cada vez mais vazia” de valores construtivos e eternos.

A questão é que o esvaziamento do significado mais profundo que deveria subentender o Natal consiste de inquietante indicativo da intensa alienação própria de uma sociedade em que persistem velhas máculas apontadas pelo “rei dos judeus”, as quais conformam as bases da corrupção, das desigualdades de oportunidades, das injustiças e da violência.

Num contexto mais amplo, o que se constata é que, conquanto a ciência já tenha gerado os meios e recursos suficientes para suprir todas as necessidades humanas, ainda há, por todo o planeta, carência de alimentação, moradia, assistência médica e educação, por consequência de divisões raciais, religiosas e econômicas e da competição pelo poder.

Embora possa se afigurar utópico, o fato é que – conforme raciocina o sábio Jiddu Krishnamurti –, se os políticos tivessem real interesse em solucionar o sofrimento humano, abririam mão de seus sistemas, ideologias e poderes e se uniriam para prover a todos do essencial à sobrevivência digna – mas se interessam apenas por sua satisfação imediata.

Enquanto isso, o mundo segue em conflagração.

Nota do editor da Aldeia: Tasso Assunção é escritor e consultor em produção textual; membro da Academia Imperatrizense de Letras - AIL.
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