-->

O evangelista

Publicidade
por Roberto Rocha*

Quis o destino que as boas novas fossem clamadas ao Maranhão por um Evangelista, o nosso João que nos deixou na semana passada. E a sua mensagem, de que era possível resistir e mudar o Maranhão, ecoou pelos quatro cantos com a sua eleição para a presidência da Assembleia Legislativa.

Foi um momento de bravura e grandeza pessoal que abriu as portas para a alternância de poder, fonte e matriz da democracia que em nossa terra ainda é planta tenra que exige cuidados. O papel de João Evangelista nesse percurso foi fundamental, não apenas por encarnar as virtudes de um político afável e de caráter, mas pelo exemplo que deu ao mostrar que a Assembleia não é um apêndice do poder central, mas uma instância de debates e arena do saudável embate das diferentes correntes políticas.

Parece incrível, mas pela primeira vez o orçamento do Estado foi discutido seriamente pela Casa do Povo, com propostas de emendas e destinação de recursos definidas a partir de audiências públicas. Como o João bíblico, nosso João também era um exímio artesão no ofício de costurar redes, não de pesca, como fazia o apóstolo, mas redes de relacionamento entre a classe política e a sociedade.

A sua presidência tornou-se um parâmetro de conduta, seriedade e isenção para todos aqueles que o sucederem. A nova sede, à altura da renovada dimensão política da Casa, é um símbolo permanente da perseverança com que João Evangelista teceu a imagem de uma instituição forte e protagonista dos destinos do Estado.

Testemunhei na sua despedida o carinho que centenas de funcionários dispensaram ao ex-presidente, que marcou também sua trajetória pela maneira cordata e humana com que tratava a todos. Esse modo de ser revelava sua origem humilde, alheio a qualquer traço de arrogância que o poder infunde aos de caráter fraco.

Seu papel no cenário político foi comparado à dama no jogo de xadrez. A peça indispensável, sem a qual seria praticamente impossível resistir. Graças a Deus João Evangelista recebeu ainda em vida o reconhecimento do seu papel histórico, seja de aliados, seja de adversários. Simbolicamente, assumiu interinamente a cadeira de Governador, para a qual a sua estatura moral e política o destinava, não fosse a trapaça do destino.

O seu martírio pessoal, o infortúnio que se abateu sobre ele e sua família, foi enfrentado com a dignidade de que só os bravos dão prova. Perdemos um amigo e uma referência, mas cultivo a esperança de ver na figura de Neto Evangelista, seu filho, a semente de energia e ideais que herdou do pai para trilhar os caminhos da boa política.

* Roberto Rocha (imagem acima) é deputado federal e pré-candidato ao senado federal pelo PSDB
Advertisemen