Crescimento do PIB foi bom para você... Só que não!

Publicidade

Golpe promove reconcentração brutal de renda

A nossa tese se confirmou.

O modesto crescimento do consumo das famílias, detectado pelo IBGE e festejado pelo governo federal como grande vitória, porque evitou maiores queda no PIB, foi na verdade o resultado de um processo abrupto e brutal de reconcentração de renda.

A renda das famílias mais ricas, que ganham mais de 17 mil reais ao mês cresceram 10% enquanto a das classes D e E caíram 3%.

O Valor (leia-se Globo) dá a notícia como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Miguel do Rosário, O Cafezinho

Na retomada, renda da classe 'A' sobe 6 vezes mais depressa

Depois de liderar as perdas durante a recessão, a renda da classe A é agora a que mais cresce na retomada econômica. Levantamento da Tendências Consultoria mostra que a massa de rendimento do trabalho do "topo da pirâmide" cresceu 10,3%, em termos reais, no primeiro semestre, frente ao mesmo período de 2016. Isso significa incremento de R$ 2,9 bilhões no rendimento somado desse grupo.

Esse avanço da massa salarial da classe A - composto por famílias com renda superior a R$ 17.286 mensais, no critério do estudo - foi seis vezes mais rápido que a média geral (+1,5%) no primeiro semestre. Superou, desta forma, a recuperação percebida pelas classes B (+0,69%) e C (+1,06%). A massa de renda das classes D e E, por sua vez, apresentou perda de 3,15% no período.

Segundo Camila Saito e Adriano Pitoli, economistas da Tendências e autores do estudo, a recuperação mais acelerada da classe A reflete a forma como ela está inserida no mercado. Um em cada quatro são empregadores, ou seja, donos de negócios. Isso significa que seus rendimentos estão intimamente ligados ao desempenho dos lucros das empresas, que tendem a se recuperar no ciclo de retomada econômica.



"No momento de recuperação, as empresas buscam retomar o padrão histórico de lucro antes de reajustar salários de empregados. Como a renda desses empreendedores se confunde com o lucro das empresas, é natural que cresça primeiro. Outras classes sociais também tiveram, porém, aumento real da renda, ajudados ainda pela acelerada queda da inflação", afirma Pitoli.

Essa característica também vale ao contrário. A renda dos donos de negócios recua mais em momentos de crises. Durante o biênio recessivo de 2015-2016, a massa de rendimentos das famílias da classe A recuou 12,2%, segundo o levantamento da Tendência. Foi um desempenho pior em comparação às classes B (-5,9%), C (-3,3%) e D/E (+8,7%).

Para realizar o levantamento, a Tendências utilizou os microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os valores referem-se à renda fruto do trabalho, sem considerar ganhos com aposentadorias e de programas de transferência de renda de governos estaduais e federais, por exemplo.

Pitoli diz que o crescimento da massa salarial da classe D/E durante a crise - assim como a queda no primeiro semestre de 2017 - precisa ser relativizado pela mobilidade social. "Como é sabido, famílias da classe C perderam renda e foram empurradas de volta para a classe D/E. Como a massa salarial é calculada pelo número de domicílios vezes a renda, esse movimento influencia o dado", disse o economista.

De acordo com a pesquisa, o número de famílias da classe A cresceu 4,2% no primeiro semestre deste ano. São 41 mil famílias a mais na comparação aos seis primeiros meses do ano passado. Esse elite da renda representa 1,47% do total de domicílios no país. No outro extremo, as famílias das classes D/E cresceram 1,1% entre os dois semestres, o que significa uma adição de 474 mil domicílios.

O crescimento da massa de renda da classe A refletiu-se no consumo de luxo. Dados da Fenabrave (entidade que reúne os revendedores de veículos) mostram que a participação dos modelos médio e de luxo na indústria automotiva passou de 34% em 2016 para 37,5% este ano, considerando dados acumulados de janeiro a julho. Já as vendas de imóveis de quatro quartos cresceu 44% no primeiro semestre em São Paulo, ante alta de 2,2% de dois quartos.

Rupak Patitunda, gerente da Ipsos Public Affairs Brazil, diz que as pesquisas do instituto apontam queda do consumo em todas as classes sociais durante a crise. Segundo ele, porém, o padrão consumo das classes A/B estabilizou a partir de novembro do ano passado, enquanto o consumo das classes D/E permanecem em deterioração. A classe C, por sua vez, teria estabilizado em março deste ano.

"Nas compras de supermercado, as classes A/B têm mais onde cortar gastos. O consumo de essenciais dela é menor proporcionalmente menor do que nas classes D/E. A partir de agora, pelo padrão de comportamento das crises anteriores, devemos ver alguns produtos voltados ao prazer pessoal voltando a crescer, como chocolate", disse o gerente da Ipsos.

O estudo da Tendências mostra ainda que essa maior injeção de recursos via massa vai continuar nos próximos anos. A expectativa é que as classes A e B sigam com crescimento percentual mais acentuado. A classe A deve ver sua massa de renda crescer 5,1% em 2017 e 5,2% em 2018. A classe B deve ter um incremento de 1,2% em 2017 e de 2,1% no ano que vem.

"A expectativa é também de retomada da migração das famílias para classes mais altas, porém em ritmo mais lento que o observado no período anterior. Para a classe C, esse fenômeno deve ser retomado em 2017, porém em ritmo mais lento do que o observado antes de 2013", avaliam os economistas no estudo, que prevê incremento de 4,167 milhões de famílias na classe C de 2019 a 2025.
(Bruno Villas Bôas, Valor Econômico)
Publicidade