Segredos da guerrilha curda contra o Isis

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No final de 2014, poucos meses depois de Estado Islâmico (Isis) avançar maciçamente no Síria e no Iraque, cometendo massacres genocidas e feminicidas, uma luz revolucionária surgiu no horizonte da pouco conhecida cidade de Kobane.

Após invadir Mosul, Tel Afar e Sinjar no Iraque, e conquistar vasto território na Síria, o Isis preparou-se para lançar um ataque à região conhecida pelos curdos como Rojava. O que o grupo não previu foi deparar-se com um tipo diferente de inimigo – uma comunidade organizada e politizada, que estava pronta para defender-se corajosamente por todos os meios, e com uma visão de mundo que vira a ideologia da morte do Isis de ponta cabeça.

Arîn Mîrkan, uma jovem curda livre e revolucionária, viria a tornar-se o símbolo da vitória de Kobane – a cidade que rompeu o mito do fascismo invencível do Isis. Guerreira das Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ, na sigla em curdo), Arîn Mîrkan explodiu a si mesma em outubro de 2014, próximo da montanha Mishtenur, criticamente estratégica, para resgatar seus companheiros e companheiras e tomar a posição do Isis. Isso mudou o curso a batalha em favor das Forças Populares de Defesa (YPG/YPJ) e outros grupos armados amigos, empurrando o Isis para a defensiva. Depois de meses de luta incansável, que obrigou a coalizão liderada pelos EUA a oferecer apoio militar aéreo, Kobane foi libertada.

Quase todos os dias, surgem vídeos dos moradores das vilas celebrando sua libertação das garras do Isis. As pessoas dançam e fumam seus cigarros pela primeira vez novamente. Homens fazem suas barbas com lágrimas de alegria. Mulheres queimam e pisam em seus véus negros e gritam cânticos de liberdade. Aos olhos dos lutadores e da comunidade organizada na região, especialmente mulheres, essa guerra épica foi percebida não como um conflito étnico ou religioso, mas como uma batalha histórica entre o mal concentrado do estatismo dominado pelos homens, a modernidade capitalista incorporada pelas gangues estupradoras do Isis, e a alternativa de uma vida livre personificada pelas mulheres liberadas em luta.

A vitória da Kobane revolucionária Kobane foi uma demonstração prática de que a luta contra o Isis não consistia meramente de armas, mas de uma ruptura radical com o fascismo e as estruturas subjacentes que o tornam possível. Isso requer democracia radical e instituições sociais, políticas e econômicas autônomas, especialmente estruturas de mulheres que as posicione em franca oposição ao sistema estatal de classe, hierarquia e dominação. De modo a libertar a sociedade da mentalidade e de sistemas como o Isis, a autodefesa antifascista necessita ocupar todas as áreas da vida social – da família à educação e à macroeconomia.

Um produto da modernidade capitalista

Tem havido muitas tentativas de explicar o fenômeno do Isis e seu apelo a milhares de jovens, especialmente se considerarmos a brutalidade dos métodos da organização. Muitos chegaram à conclusão de que aqueles que vivem sob o domínio do Isis frequentemente servem o grupo por medo ou por recompensa econômica. Mas, claramente, milhares de pessoas do mundo inteiro juntaram-se voluntariamente ao grupo tirânico. Fizeram-no não a despeito, mas precisamente por causa de sua capacidade de cometer as mais impensáveis crueldades. Parece que não é religião, mas um sentido de poder cruel e impiedoso – mesmo à custa da morte – que irradia do Isis o que atrai pessoas de todo o mundo para o grupo extremista.

Teorias que apontam um só fator geralmente são incapazes de analisar o contexto político, econômico e social que torna possível a emergência de uma doutrina anti-vida como a do Exército Islâmico. Não se trata de isentar de responsabilidade indivíduos que cometem crimes contra a humanidade. Mas é preciso considerar o apelo do Isis a homens jovens, privados da oportunidade de ser seres humanos decentes e dignos. É crucial enxergar o senso de gratificação instantânea – em forma de poder autoritário, dinheiro e sexo – que o Isis oferece numa sociedade submetida ao câncer do capitalismo patriarcal, que torna a vida sem sentido, vazia e sem esperança.

Patologizar o apelo do Isis por trás do cenário da chamada “guerra ao terror”, ao invés de situá-la no contexto de instituições de poder e violência mais amplas, não permitirá entender o que leva “bons meninos” da Alemanha a viajar para o Oriente Médio para tornar-se carrascos. E o Isis ainda é apenas a manifestação mais extrema de uma aparente tendência apocalíptica global. Com a virada recente, rumo a uma política autoritária de direita em muitas partes do mundo, uma palavra – antes considerada banida para sempre da sociedade humana – entrou novamente em nossa vida cotidiana e nosso léxico político: fascismo.

Há, claramente, diferenças imensas entre os contextos, características e métodos dos vários movimentos fascistas. Mas o Isis é um exemplo paradigmático de organização hierárquica, pensamento autoritário, sexismo extremo, retórica demagógica e recrutamento voltado a capitalizar carências, medos ou desejos entre grupos sociais vulneráveis.

Talvez possamos pensar o fascismo como expressão de um sistema, em que os Estados que estão no topo do sistema capitalista mundial têm os meios para impor sua autoridade através de políticas institucionais, econômicas, comércio de armas, hegemonia midiática e cultural – enquanto outros, em reação, dependem de formas mais “primitivas” de fascismo, como a violência extremista aleatória. Há um claro paralelo em como os fascistas, em qualquer lugar, dependem de um ambiente de paranoia, desconfiança e medo para fortalecer a mão do Estado. Os que desafiam seus inimigos são rotulados ou de “terroristas”, ou de “inimigos de Deus” – e qualquer ação para destruí-los é permitida.

A força do fascismo depende da completa falta de relação dos governantes com a comunidade em geral. É alimentado por um clima em que a comunidade perde sua capacidade de iniciar ações diretas, expressar a criatividade e desenvolver suas próprias alternativas. Qualquer forma de solidariedade e lealdade dirigida a outra coisa ou pessoa que não seja o Estado deve ser sistematicamente erradicada, para que o cidadão isolado e individualizado seja dependente do Estado e de suas instituições policiais e educacionais.

É por isso que um dos pilares mais críticos do fascismo é o capitalismo, como sistema econômico, ideológico e de interação social. No sistema de valores do capitalismo moderno, as relações humanas são reduzidas a uma mera interação econômica, calculada e mensurada pelo interesse e lucro. É fácil ver a habilidade do capitalismo para dispor de vidas em nome de interesses maiores – como o Isis faz paralelamente com as vidas sacrificadas pelo pseudo-califado de estupro, pilhagem e assassinato.

Mulheres, a mais antiga colonia

Ainda mais crucialmente: o fascismo nunca poderia emergir se não fosse pela escravização da mais antiga colônia: as mulheres. De todos os grupos oprimidos e brutalizados, as mulheres foram submetidas às formas mais antigas de violência institucionalizada. A visão das mulheres como espólios de guerra, ferramentas para servir aos homens como objeto sexual persiste em cada manifesto fascista. A emergência do Estado, juntamente com a fetichização da propriedade privada foi, sobretudo, possibilitada pela submissão das mulheres.

Na verdade, é impossível exercer o controle sobre populações inteiras ou criar divisões sociais profundas sem a opressão e marginalização das mulheres, promovida pela dominação masculina na história escrita, produção teórica e prática, e na administração econômica e política. O Estado é moldado segundo os padrões da família patriarcal e vice e versa. Todas as formas sociais de dominação são, em alguma medida, reproduções de forma mais abrangente, íntima, direta e nociva de escravização – que é a subjugação das mulheres em todas as esferas da vida.

Diferentes estruturas e instituições de violência e hierarquia – como o capitalismo e o patriarcado – têm características distintas, mas o fascismo constitui a inter-relação sistematizada entre elas. E é aí que o fascismo e o capitalismo, juntamente com a mais antiga forma de dominação humana – o patriarcado – encontram suas expressões mais monopolizadas e sistemáticas no estado-nação moderno.

Regimes anteriores, ao longo da história, tinham características despóticas, mas sempre baseavam-se, para obter legitimidade, em códigos morais, teologias religiosas e instituições divinas ou espirituais. A particularidade do capitalismo moderno é despir-se de todas as pretensões de moralidade em relação à lei e à ordem, e expor seu sistemas obscenamente destrutivo.

Sem a hierarquia e hegemonia natural do Estado, que monopoliza o uso da força, da economia, ideologia, informação e cultura; sem a onipresença dos aparelhos de segurança que penetram todos os aspecto da vida, da mídia ao quarto; sem a mão disciplinadora do Estado como um Deus na terra, nenhum sistema de exploração ou violência poderia sobreviver. O Isis é um produto direto de ambos: antigos modelos de hierarquia e violência, assim como o capitalismo moderno e seu pensamento único em relação a economia. Entender o Isis – e o fascismo de forma mais geral – significa compreender a relação entre patriarcado, capitalismo e o Estado.

Democracia radical versus totalitarismo extremista

Se o fascismo é combinação de patriarcado, capitalismo, nacionalismo, sectarismo e autoritarismo estatal como método, é claro que uma luta antifascista relevante deve necessariamente empregar uma mentalidade e ética oposta fundamentalmente aos pilares de tais sistema de violência. As forças de autodefesa de Rojava tentam fazer exatamente isso.

Desde a liberação de Kobane, o YPG/YPJ fortaleceu-se em termos qualitativos e quantitativos, possibilitando às guerrilhas conectar dois dos três cantões, Jazira e Kobane. Nos estágios iniciais da guerra, a esmagadora maioria das forças eram curdas, mas a composição étnica mudou imensamente ao longo do tempo.

Em outubro de 2015, o YPG/YPJ juntou-se a um grande número de forças regionais e criou uma coalizão multiétnica. Chama-se Forças Democráticas da Síria (SDF, em inglês). Inclui curdos, árabes, sírios, assírios, tchetchenos, turcomenos, circassianos e armênios. Busca a criação de uma Síria secular, democrática e federal, que não aceite nem a ditadura de Bashar al-Assad, nem oposições antidemocráticas, dirigidas a partir do exterior. Embora sob constante ataque pelo Isis e diversos outros inimigos – incluindo várias milícias islâmicas, o exército sírio, o Exército Livre da Síria e o Estado turco – as SDF libertaram com sucesso antigas bases do Isis, como Manbij e Shaddadeh. Agora, lideram a operação para liberar Raqqa, considerada capital do Exército Islâmico. Controlam toda a região de fronteira ao sul da Turquia, que antes constituía a principal rota de suprimeinto para o Isis em termos de logística, munição, finanças e homens.

Desde então, a Turquia tomou como missão treinar milícias turcomenas obedientes ao Estado turco, bem como forças sunitas em geral. O exército dos EUA repete constantemente que apoia as SDF por serem árabes. Enquanto isso, as forças curdas próximas do Partido Democrático do Curdistão, dirigido por Massoud Barzani, no Iraque, tentam construir um exército curdo à sua imagem. Ou seja, a formação intercultural das SDF perturbam não apenas as forças hostis à autodeterminação curda, mas também projetos de nacionalismo curdo estrito.

Em luta contra diversos inimigos ao mesmo tempo, as SDF são, na verdade, apenas o sistema físico de autodefesa de um projeto mais amplo de sociedade contra a ordem capitalista, patriarcal e estatista. Desde que começou a revolução em Rojava, em 2012, esforços incansáveis foram dedicados à criação de uma alternativa realista e viável, que garanta vida ativa às diferentes comunidades e grupos da região. O sistema do confederalismo democrático, no norte da Síra, foi adotado por um coletividade de pessoas de todas as comunidades da região. Propõe um modelo de Síria federada, secular, democrática e com igualdade de gênero. A população local está mobilizada desde sua base, por meio de estruturas de democracia radical, que começam em pequenas comunas de rua.

A partir da proposta de Abdulla Öcalan, de um modelo de autonomia democrática [Ler “O surpreendente Curdistão libertário”], a vida quotidiana em Rojava é organizada por meio da transformação da política numa atividade vital de cada habitante. Ao criar formas alternativas de organização social, por meio de autogestão e solidadriedade protegidas por estruturas autônomas de mulheres e jovens, milhares de pessoas converteram-se em agentes ativos de suas próprias vidas.

A democracia radical fortalece os laços de solidariedade que o capitalismo tenta tão agressivamente romper, para produzir os indivíduos egoístas necessários para sua agenda orientada pelos lucros. Por meio de participação direta e comunal em todas as esferas da vida, a população local – organizada em estruturas autônomas e não estatais – constrói sentidos mais profundos de si, da comunidade e das ligações entre democracia e identidade.

Em Rojava, há ligações estreitas entre a democracia radical e conceitos de pertencimento e identidade que tomam como ponto de referência valores éticos e democráticos, em vez dos mitos nacionalistas em que o fascismo se apoia. Com o paradigma de nação democrática, como antídoto aos nacionalismo do Estado, os protagonistas da revolução de Rojava tentam formular uma identidade em torno de princípios – e não de etnicidade. Isso acomoda as diversas identidades, diversifica e protege a democracia e sua nova condição de pertencimento. Só estas comunidades fortes, baseadas em ética e política – uma sociedade “moral-política”, nas palavras de Öcalan – podem defender a si próprias contra os ataques mentais e físicos do inimigo fascista.

A democracia radical precisa necessariamente, portanto, ser internacionalista em perspectiva, enquanto dá a todas as identidades o espaço necessário para que se organizem e democratizem. A criação das SDF, como autodefesa de todos os componentes étnicos e culturais da região, baseia-se na compreendo de que o tempo dos Estados-Nações passou; e de que uma vida livre não pode ser construída por mentalidades nacionalistas – que estão entre as causas da guerra. Além disso, a simples presença de um exército autônomo de mulheres – claramente comprometido com a libertação das mulheres de todas as manifestações de dominação masculina –, num mar de violência militarista e patriarcal, constitui o elemento mais anticapitalista e antifascista em Rojava. Os princípios que motivam uma mulher a ser militante por um mundo justo e belo, numa sociedade patriarcal e conservadoras, requerem um imenso esforço mental, emocional e físico.

É muito subversivo enfrentar o símbolo dominante do homem, para vencer o patriarcado. Mas estes atos precisam ser acompanhados por uma revolução social mais ampla. Organizando-se em cooperativas, comunas e assembleias, as mulheres conseguiram tornar-se a força mais vibrante e revolucionária em Rojava – as garantidoras da liberdade. Embora a dominação masculina ainda não tenha sido superada, as mulheres já estabeleceram uma cultura política geral que não normaliza o patriarcado e que respeita incondicionalmente os mecanismos de decisão das mulheres.

O YPJ destaca que a libertação das mulheres é a maneira mais direta de lutar contra o fascismo de cor religiosa, a modernidade capitalista e outras formas de autoritarismo. A operação Cólera do Eufrates para libertar Raqqa, onde o Isis ainda mantém milhares de mulheres como escravas sexuais, é liderada por uma mulher curda de nome Rojda Felat. As cenas de lutadoras doYPJ sendo abraçadas e beijadas por mulheres que foram forçadas a viver sob o jugo do Isis por anos ajudarão um dia a construir a história do século XXI no Oriente Médio.

Internacionalismo antifascista

A imagem pública das forças armadas de Rojava mudou abruptamente, aos olhos de partes da esquerda, após a libertação de Kobane. Embora tenha sido inegavelmente uma batalha heroica, vencida por uma comunidade organizada e pelo poder de mulheres livres, a simpatia generalizada dissipou-se no mesmo momento em que estas forças receberam apoio aéreo da coalizão liderada pelos Estados Unidos. Por terem figurado, durante muito tempo, entre as maiores vítimas do imperialismo no Oriente Médio, os curdos e seus vizinhos não precisavam de nenhum esclarecimento a mais sobre os males do império. Os genocídios e massacres cometidos contra eles por forças imperialistas seguem vivos na memória. Mas visões de mundo dogmáticas e binárias, e críticas obtusas não apresentam nenhuma alternativa viável às pessoas que lutam por suas vidas. Mais importante: não salvam vidas.

Para as pessoas cujas famílias estavam sendo massacradas pelo Isis, a facilidade com que alguns grupos de esquerda no Ocidente pareciam rejeitar ajuda militar, em favor de noções românticas de pureza revolucionária, era no mínimo incompreensível. A defesa de um aiti-imperialismo incondicional, quando afastada da existência humana real e das realidades concretas, é um luxo pelo qual apenas os que estão muito distantes do trauma da guerra podem pagar. Conscientes dos perigos de ser instrumentalizadas e em seguida abandonadas, por grandes potências como os EUA e a Rússia – mas bloqueadas entre a cruz e a espada – a prioridade das SDF foi e ainda é sobreviver e eliminar as ameaças mais imediatas à existência de centenas de milhares de pessoas, nas vastas faixas de território controladas.

Enquanto alguns no Ocidente adotam uma atitude realista de solidariedade com as SDF – que compreendem as dimensões da luta e trabalham em meio a contradições – outros tomam a suposta “colaboração com o imperialismo” como pretexto para recusar-se a reconhecer qualquer dos elementos positivos que a revolução em Rojava pode aportar, num contexto de guerra e caos. É claro: nenhuma vitória revolucionária nos séculos anteriores foi pura ou perfeita. Mas o dogmatismo sectário em que parte da esquerda ocidental permanece mergulhado – sobre a questão da Síria em geral, e Rojava em particular – diz muito mais sobre o próprio estado da esquerda que sobre as realidades da resistência antifascista concreta.

É fácil rejeitar qualquer forma de autoridade e poder quando elas estão muito longe do alcance dos revolucionários. Mas é indispensável conceitualizar o poder – e a autoridade, quando necessário – revolucionários para proteger milhões de pessoas. Instituir um sistema de liberação, sem cair nas armadilhas do autoritarismo, exige ter coragem e assumir riscos. Enquanto as conquistas revolucionárias não eliminarem o período de autoritarismo, cooptação imperialista e traição, as mentalidades hierárquicas, a corrupção e os abusos prevalecerão.

Os governos envolvidos na guerra contra o Isis contribuíram para o caos por meio de suas próprias políticas, ações de guerra e comércio de armas. Em última instância, eles compartilham a mesma mentalidade que anima o Isis. Não serão jamais os que derrotarão o Estado Islâmico. Os principais inimigos do Isis são precisamente os que o enfretam a partir de uma forma radicalmente distinta de conceber a vida. Derrotar o extremismo autoritário só é possível por meio da democracia radical e da libertação das mulheres. Nesse contexto, as SDF travam uma das mais importantes lutas antifascistas de nosso tempo – e precisam ser apoiadas.

A morte heroica de Arîn Mîrkan foi um hino à vida, à liberdade, à emancipação das mulheres. Sua ação generosa de solidariedade com seu povo e a liberdade das mulheres foi uma afronta radical não apenas ao Isis, mas às próprias mentalidades em que se baseia o capitalismo global: a fetichização do lucro e o individualismo. Num mundo que coisifica as mulheres, Arîn Mîrkan usou seu corpo como fronteira final contra o fascismo.

A batalha de Kobane estimulou o imaginário criativo das pessoas em todo o mundo. Revelou que uma sociedade politicamente consciente e organizada pode, mesmo com meios limitados, derrotar as armas mais pesadas, as ideologias mais sombrias e os inimigos mais terríveis. A tarefa dos antifascistas deve ser nunca render-se às instituições autoritárias, e buscar os meios de defender a comunidade. Para homenagear revolucionárias heroicas como Arîn Mîrkan, a luta antifascista precisa dizer; já basta.

Dilar Dirik, Roar Magazine | Tradução: Cauê Ameni e Inês Castilho, Outras Palavras
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