Panelas do golpe: batidas e abatidas

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Paneleiros do Brasil uni-vos! É chegada a hora de voltar às ruas, sentar nas calçadas das manifestações grotescas e chorar lágrimas de esguicho, como diria o inesquecível Nelson Rodrigues. A festa acabou, panelas não ecoam mais, viraram vergonha nacional, símbolos da ignorância política e cidadã.

Apoiaram o golpe que tirou a presidenta eleita democraticamente pela maioria dos eleitores, ratificaram a solução espúria de substituição do mordomo de Cruz Credo, segundo Antônio Carlos Magalhães, além de aplaudirem delirantemente a defenestração do PT pela PGR, pela Justiça e pela mídia em campanha judicial de mão única.

Ajudaram a garantir o quanto pior melhor no cenário político brasileiro, o que levou não só a subverter a legalidade e a constitucionalidade soberanas das legislações, da ordem e do progresso, como também à desconstrução da economia nacional.

Ao legitimarem o golpe político, os paneleiros assinaram em baixo a demonização de todos os programas sociais do governo deposto que levaram à redução da pobreza e da desigualdade de rendas. A melhoria social e econômica vista no país, reconhecida por organizações internacionais, foi combatida pelas panelas como concessão de privilégios, benesses e prêmios indevidos à raia miúda.

A concepção estreita, discricionária e desumana de “cada macaco no seu galho” contou mais forte e levou os afiliados dos paneleiros aos desfiles grotescos e abjetos das panelas. Nunca se cozinhou tão pouco e se batucou tanto desvairadamente pelos bandos de inconsequentes, idiotizados e gérsons.

A Lei de Gérson, a de tirar vantagem em tudo, voltou a imperar nesses desfiles e vídeos espalhados pelas redes sociais. A mídia não deixou de acolhe-los ao reforçar nas manchetes diárias, escritas, televisadas e irradiadas, a pressão política sobre o governo democraticamente constituído.

A apoteose foi as votações da Câmara e do Senado no “julgamento” do impedimento da Presidenta. Óperas bufas, tão hilárias quanto deprimentes, apresentaram a cara dos representantes da banda bichada da população brasileira. Mostrou-se ao mundo a representação fática da vergonha e da boçalidade nacional.

Assumido o novo governo ilegítimo, as panelas perderam utilidade, se recolheram, serviram tanto como troféus de uma vitória de Pirro, quanto como símbolos de uma ira estimulada, fascista e estapafúrdia da cegueira política nacional. Não se ouve hoje em dia mais panelas, embora tenha piorado as condições econômicas e sociais da população brasileira em tão pouco tempo. Os paneleiros trocaram seis por bem menos de meia dúzia, talvez por coisa nenhuma.

Pesquisa da PNAD divulgada agora em novembro mostra que a metade superior das pessoas que declararam rendimentos teve perda real de renda mais acentuada do que a metade inferior. O resultado desse movimento foi a de manutenção da desigualdade total de rendas que se manteve no mesmo nível entre 2014 e 2015.

A perda maior dos mais ricos em relação aos mais pobres se deve muito à rede de proteção social desenvolvida nos governos Lula e mantida no governo deposto. Ela com certeza sustentou uma movimentação de trabalho, renda e negócios, ajudando a garantia de melhoria de vida dos mais necessitados.

Pelo andar da carruagem de 2014 a 2015, é possível e bastante provável que a situação geral de renda tenha se deteriorado mais ainda agora em 2016. Com a parada e quebra de empresas, notadamente na área direta ou indiretamente ligada à construção civil, contingentes de trabalhadores perderam emprego e renda, o que deve ter provocado queda maior da renda real especialmente da metade superior.

E é exatamente nesta metade superior onde se encontram boa parte dos paneleiros. Assim, a Lava Jato, o novo governo ilegítimo, a PGR, empresários, banqueiros e a mídia deram o troco aos paneleiros, mas não do jeito que seus espíritos conservadores, retrógrados e/ou golpistas pensavam e queriam. O feitiço virou contra os feiticeiros.

Irônica e maldosamente, a manutenção da desigualdade de renda em torno do mesmo nível, medida pelo coeficiente de Gini (quanto mais perto de zero menor a desigualdade), passou de 0,490 em 2014 para 0,485 em 2015. Para que isso, então, ocorresse, a metade superior das pessoas com rendimentos, onde estão milhares e milhares de paneleiros, sofreu mais diferenciações de renda do que a metade inferior.

Informa ainda a PNAD que houve pela primeira vez em 2015 desde 2004 uma queda no número de pessoas ocupadas, cerca de 3,8 milhões. Na mesma onda, outras 2 milhões deixaram de contribuir para a previdência social. Outros tantos expulsos de seus empregos foram procurar e tentar sobrevivência nos trabalhos e serviços autônomos.

Simples assim, em resumo: a pressão de desorientados fantoches políticos com panelas ajudou e legitimou o processo do golpe parlamentar/jurídico/midiático então em andamento que travou a presidência da república, a economia e os negócios, gerando trava de diálogo executivo-legislativo, parada e quebra de empresas, desemprego, perda de renda e desassistência social.

Onde estão agora as panelas que foram batidas para tirar do cargo uma presidenta honesta, democraticamente eleita, para colocar em seu lugar um grupo de golpistas na maioria com denúncias de corrupção? E que não são levados à presença de qualquer juiz para se explicarem? Onde está a mídia que distribuía manchetes para qualquer coisa contra petista e agora nem com evidências, provas e denúncias nada publica contra o resto?

As panelas deixaram de ser batidas, estão abatidas. O pacote de “derrubada” fiscal a cargo do governo ilegítimo de plantão vai afetar também e em cheio os paneleiros. Toda a classe média, desde a baixa até a alta, será abatida pelas medidas absurdas propostas e em votação agora no Senado Federal.


Ainda há tempo, entretanto, para os paneleiros vestirem a carapuça, se envergonharem de montão, enxugarem suas lágrimas de esguicho e voltarem às ruas contra o descalabro do pacote fiscal. Brandindo, quem sabe, agora as bandeiras da reconstrução do país que eles ajudarem a afundar.

Incluindo a repugnância cidadã, se ainda lhes restarem alguma coisa, pela proposta de votação às pressas e pelos líderes dos partidos da anistia geral e irrestrita de todas as formas de corrupção, lavagem de dinheiro e que tais, pronta para vingar a partir da semana que vem no Congresso Nacional.

Ao tempo em que muitos dos seus podem inclusive deixar de comprar terrenos no céu ou tijolos sagrados de vendedores evangélicos e passarem a reverter seu dinheiro para ajudar a por em pé a economia que contribuíram para o afundamento.

Antes que falte vergonha na cara, cidadania, civilidade, bom senso, tudo aquilo que faz de um paneleiro, não um robô ou um drone, carregado de instruções pré-concebidas e preconceitos, mas um brasileiro livremente preocupado com a construção de uma democracia sã e autêntica em seu país.

José Carlos Peliano, Carta Maior
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