Notas sobre a morte do liberalismo

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Notas sobre o liberalismo

A crise econômica de 2008 e seus evidentes desdobramentos já mostravam pistas de seus resultados na política há algum tempo. Os conflitos internos na zona do Euro e o Brexit podem ser interpretados por essa perspectiva. A eleição de Donald Trump, independente dos discursos machistas, xenófobos e classistas, me parece mais uma prova cabal de que a visão (neo)liberal está ultrapassada. Enquanto o Brasil continua debatendo como tornar nosso modelo fiscal mais atrativo para o investimento estrangeiro através da PEC do Novo regime fiscal.

Notas sobre a morte do liberalismo

Algumas das análises mais importantes sobre os problemas econômicos pelos quais o Brasil passou nos anos 1980 dão conta de que, em verdade, o país optara, alguns anos antes, em permanecer com o desenvolvimentismo/protecionismo. Essa visão havia baseado o II PND, a despeito de ter dados sinais claríssimos de desgaste. A versão da moda é que as políticas desenvolvimentistas haviam tornado-se anacrônicas. O endividamento proveniente do Plano e sua lógica protecionista impuseram ao país dificuldades que nos fizeram "perder" toda uma década. Enfatizava-se, naquele momento, que as políticas liberais que tiraram os países desenvolvidos da crise.

A generalização do discurso liberal nos anos 1990 permitiu que se passassem quase duas décadas fazendo reformas liberalizantes, todas insuficientes para a aplicação completa do receituário. A caracterização dessas reformas, a despeito de não representaram qualquer tipo de abertura do mercado de trabalho, eram terceirizações de fábricas para países de mão-de-obra barata e estado enxuto (também barato) e desregulamentações para a atração de capitais. No plano nacional, a imposição dos mercados para a manutenção dos investimentos produtivos implicava em diminuição do custo do Estado e da mão-de-obra.

Assim como a crise dos anos 1980 mostrara a farsa do que representava o desenvolvimento com poupança externa, a crise de 2008 mostrou que a liberalização financeira estimulava muito mais a especulação que o desenvolvimento. Muito mais rápido que o discurso econômico, (a meu ver) o debate do dia a dia parece radicalizar em relação à negação do liberalismo. O resultado sem filtro são os discursos machistas, xenófobos e classistas. Trata-se de uma interpretação da eleição de Donald Trump.

Como a repetição farsesca da história parece fadar o Brasil dos últimos tempos (no que se refere a chegar ao poder sem necessidade de voto), o governo brasileiro parece determinado a apostar nas políticas de enxugamento do Estado e barateamento da mão-de-obra. Se essa insistência se mostrará anacrônica o tempo dirá...

Por fim, o papel dos pensadores nesse momento parece ser o de construir um discurso alternativo ao (neo)liberalismo que não seja machista, xenófobo e classista, mas não reformá-lo. Parece uma tarefa tão difícil quanto instigante.

Heldo Siqueira, Jornal GGN
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