Uma onda neoliberal está sacudindo a Argentina

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Para chegar ao poder e fazer tudo isso, Macri não economizou marketing político, uma teatralização cheia de slogans de sucesso.

Maurício Macri, presidente argentino. Foto: Carta Maior
No dia 30 de julho, pela primeira vez em quinze anos, um presidente argentino assistiu à abertura da exposição anual da Sociedade Rural Argentina – “a Rural”, como é conhecida. Fundada em 1866, esta associação patronal é o organismo onde se consolidam os interesses da oligarquia, primeiro a agrícola-pecuária e atualmente a agroexportadora, e vem desde assim desde os tempos do general Bartolomé Mitre, após conquistar definitivamente os territórios do interior do país, deixando um rastro de sangre de gaúchos e índios. Desde aquele momento, a Argentina passaria a ser um país radial, assimétrico, com seu centro em Buenos Aires, alguns outros núcleos urbanos espalhados por sua geografia, e, em essência, com grandes extensões rurais, muitas delas transformadas em autênticos feudos, nos que ainda hoje perdura o trabalho escravo, em muitos casos. São grupos de poder controlados por escassíssimas famílias e também por companhias multinacionais – como, por exemplo, a Benetton. Os oceanos de terra ainda são parte do eixo em torno ao qual gira o poder e a riqueza. O comparecimento (ou a ausência) de um presidente argentino a atos como estes implica um claro posicionamento político, um dos gestos que melhor definem o perfil da legislatura que adotará qualquer candidatura entrante no consistório.

Quando se anunciou o mandato de Mauricio Macri, os empresários e fazendeiros da Rural aplaudiram de pé o novo presidente, que foi eleito com a consigna eleitoral da “revolução da alegria”. Macri não frustrou esses apoiadores, pelo contrário, confirmou que seus interesses estão assegurados: “vamos tirar o pé de cima do campo e estender uma mão”, deixou claro o mandatário, durante sua intervenção. E, na prática, o discurso se viu confirmado na prática, com a anulação da lei que impedia a compra ilimitada de terras por parte de capitais estrangeiros.

Desde que assumiu, o diretório macrista vem implementando uma série de medidas que estão mudando a realidade do país de forma evidente. Apoiado pelos panelaços, Macri baseou sua campanha em atacar o kirchnerismo e denunciar um suposto decrescimento econômico. Acusou Cristina de dividir a sociedade argentina, e afirmou que a corrupção era um problema estrutural do governo anterior, assim como uma suposta política de atentar contra a liberdade de expressão e limitação das liberdades individuais. Tudo isso foi batizado como “a herança maldita”. Os principais fundamentos da política econômica do novo governo foram a eliminação do controle que limitava a aquisição de dólares, medidas para atrair os investidores estrangeiros, o pagamento da dívida com os chamados “fundos abutre”, adquiridos após o “corralito” de 2001 – e usando para isso as reservas do Banco da Nação Argentina como garantia, assim como a emissão de novos bonos de dívida. Com estas medidas, se perseguia a geração de riqueza “a conta-gotas”, ou seja, se as grandes empresas são capazes de funcionar plenamente, o trabalho e os bens permeariam a população. Contudo, as previsões apontam outro cenário: o primeiro ano de governo terminará com um crescimento econômico negativo – enquanto 2015, o pior ano do governo kirchnerista em termos de crescimento econômico, teve uma economia argentina crescendo 2,4%. Dados recentes do Instituto Nacional de Estadística da Argentina mostram que o montante total investido pelas empresas estrangeiras desde que Macri assumiu se equipara à quantia que saiu do país no mesmo período. A dívida atual, contraída num prazo de três meses, saltou para quase 50 bilhões de dólares. O economista-chefe da consultora Goldman Sachs na Argentina, Mauro Roca, declarou recentemente que devido a tal oferta de bonos argentinos, “estamos chegando a um ponto onde os investidores começam a avaliar se os rendimentos que se estão pagando são apropriados. Isso deixa pouco espaço para a revalorização”.

A outra cara das medidas econômicas do macrismo é ainda mais crua. Em pouco mais de duzentos dias, o número de pobres na Argentina aumentou em cinco milhões. Os preços do gás e da eletricidade subiram cerca de 400%, e já há anúncios de novos aumentos no curto prazo, com a mesma justificativa utilizada para os primeiros: “os argentinos estavam vivendo com recursos que superam a suas possibilidades”. Enquanto isso, empresas multinacionais como a Shell viram seus lucros serem incrementados de forma estrondosa. A respeito dessa situação, Macri se dirigiu ao povo, em meio ao inverno mais frio dos últimos quarenta anos em Buenos Aires, recomendando aos cidadãos “que não andem descalços em casa” – o que quer dizer o seguinte: se agasalhem mais e consumam menos energia.

Além disso, centenas de milhares de trabalhadores públicos e de empresas privadas. Em setores como a construção, o desemprego se incrementou cerca de 20% entre os assalariados – na Argentina, o trabalho informal, segundo dados da OIT (Organização Internacional do Trabalho), representa algo em torno de 30%. A inflação, que Macri prometeu várias vezes durante a campanha que não subiria, aumento em 23%, e se espera que chegue a 47% até o final deste semestre. Há uma semana, o diário La Nación, um dos mais importantes do país e conhecido como a bússola da direita mais conservadora, exigiu do governo um decálogo de medidas que incluíam a flexibilização do mercado de trabalho, o fim da negociação coletiva e da ação sindical, entre outras coias, num editorial com o título de “Uma mudança indispensável nas relações trabalhistas”. Entre as propostas, também constava a eliminação da indenização aos trabalhadores despedidos e que a aposentadoria seja responsabilidade dos próprios trabalhadores, através de contas de poupança individuais geradas por eles mesmos. Este pacote de medidas, evidentemente, tem a ver com as necessidades dos investidores, as quais o economista-chefe de Goldman Sachs se referia. Medidas que serão aplicadas por um presidente com contas em offshore no Panamá, segundo o recente escândalos dos “papers”.

Para chegar ao poder e fazer tudo isso, Macri não economizou marketing político, uma teatralização cheia de slogans de sucesso em outros países, como o famoso “Sim, nós podemos”, semelhante ao já utilizado por Mariano Rajoy na Espanha, e que, claro, triunfou bem antes disso, quando impulsou a candidatura de Barack Obama nos Estados Unidos, em 2008. Na Espanha, o “yes, we can” de Obama foi emulado junto com um retrato ao estilo criado pelo artista gráfico conhecido como Obey. Porém, mesmo antes de sua vitória, já havia no país um movimento que era mais que nada um grito de desprezo contra as estruturas dominantes e seus representantes. O que não muita gente sabe (especialmente os alunos espanhóis e argentinos) é que os engenheiros da primeira campanha vitoriosa de Obama não inovaram, apenas traduziram. O slogan original foi implementado nos Anos 70 por Dolores Huerta, líder sindical norte-americana. No caso espanhol, é bem conhecido como a austeridade levou o país a enfrentar um desemprego crescente e uma quantidade vergonhosa de despejos de pessoas sem condições de pagar suas contas, o que levou milhares de pessoas às ruas atrás dos gritos de guerra, em tantas manifestações convocadas por movimentos sociais dos chamados “indignados”, que desaguaram no novo partido cujo nome lembra aquele slogan de Huerta: Podemos – e mais recentemente na aliança Unidos Podemos, que ligou a jovem legenda à tradicional Esquerda Unida. Talvez seja uma retomada, pois o “sim, nós podemos” sempre foi, como vimos, uma bandeira dos de baixo.

Na Argentina, porém, quem sim pode é a velha oligarquia. Ao menos por enquanto.

Juan Manuel Pericàs, Tradução: Victor Farinelli, Público.es
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