Nerve – Um Jogo Sem Regras

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O roteiro é frágil, o que poderia ser ignorado em razão da relevância ímpar da temática abordada (de ferramentas acessórias, celular e internet se tornaram o modo de vida de algumas pessoas). Porém, o terceiro ato impede que o longa seja o thriller que tenta ser: faltou ousadia. Como action movie, todavia, a direção acerta em cheio. Imagem: Cinema com Rapadura
Há filmes que abraçam uma causa tão essencial que quase merecem que os eventuais deslizes sejam relevados. “Nerve – Um Jogo Sem Regras” tinha potencial para ser fenomenal. Já o trailer dava a entender boas intenções em um invólucro pueril e artificial. O resultado está entre os dois extremos.

O argumento se refere à interferência aguda que a realidade virtual faz nos jovens, a partir da protagonista Vee. Sua vida muda completamente ao começar a jogar Nerve, jogo da moda que se descreve como “verdade ou desafio sem a parte da verdade”. Cada um opta por participar como observador ou jogador: este executa os desafios, aquele apenas assiste a tudo. Antes de Nerve, Vee era uma garota tímida com poucos amigos que admite a insatisfação quanto à própria personalidade (não tem coragem de falar com o crush do colégio, não quer aceitar uma faculdade para não ficar longe da mãe etc.). Depois, ela se envolve com outro jogador, Ian, ganhando notoriedade ao correr riscos (o que ela até então evitava) com ele.

Partindo da ótica de quem enxerga o mundo através do celular, “Nerve” tem um roteiro que mescla matérias essenciais e contemporâneas: dark web, celebridades virtuais (e o que alguns são capazes de fazer para ser), jogos cujo êxito exige riscos à própria integridade física (pois a psicológica já está inegavelmente afetada, como os que se acidentam graças a Pokemon Go), a internet como uma prisão, voyeurismo através da tela e exposição voluntária da própria intimidade. O celular ganhou uma importância tal para algumas pessoas que, de ferramenta acessória, chega a ser seu modo de vida, numa situação patológica de imbecilidade que preocupa.

São temáticas tão nevrálgicas que permitem relevar os furos do roteiro (como as autoridades desconhecem um jogo como esse?). Porém, o terceiro ato é tão incongruente e artificial (por exemplo, na abordagem equivocada do mito do anonimato da internet), com um moralismo tão frustrante e descartável que fica prejudicada a mensagem que se quer passar. “Nerve” tem uma narrativa bastante frágil, com personagens arquetípicas (a menina tímida, o bonitão descolado, a invejável estrela, o nerd apaixonado etc.) e uma conclusão que foge do anarquismo que a proposta sugere. Ao menos não aborda o romance do casal principal com pieguice – Emma Roberts e Dave Franco, por sinal, cumprem bem os papéis que lhes cabem. Pensado para ser um thriller, a intenção é falha. A película sucumbiu ao receio de revolucionar, de fazer diferente, de quebrar paradigmas.

Se ao roteiro faltou ousadia, a direção foi bastante exitosa ao formar um action movie convincente. Henry Joost e Ariel Schulman acertam em cheio na injeção de adrenalina e no visual atraente. Câmeras subjetivas simulando vertigem, empolgante montagem acelerada, excelente uso de cores (em especial as luzes da noite nova-iorquina, cidade que nunca dorme, e a prevalência do neon invocando um frenesi), trilha sonora com um pop agitado e incessante e figurino pontual. O trailer adianta bastante material, o entretenimento, todavia, não sofre tanto impacto. Tecnicamente, o saldo é facilmente positivo na eficiência de um filme de ação bem frenético.

Ou seja, o calcanhar de Aquiles reside no roteiro, que, se fosse melhor, faria de “Nerve” um longa brilhante. No final, acaba valendo somente pela ação. O alerta para a ditadura digital é elogiável, mas deveria ser mais incisivo para fazer a diferença. Os que se enquadram como vítimas pouco conscientes da manipulação cibernética (tecnodependência) vão negar que agem como Vee e os demais. Como se “Nerve” fosse apenas ficção…



Diogo Rodrigues Manassés, Cinema com Rapadura
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