Impeachment será decidido com garimpagem de votos

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A avaliação de analistas políticos sobre o que pode acontecer na votação do impeachment, marcada para domingo (17) pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), de acordo com seus próprios interesses e regras, é de que é impossível fazer uma previsão. A negociação do governo com legendas e deputados, que já era instável, ficou ainda mais difícil de prever com o desembarque do PP da base do governo, anunciado hoje (12). PSD, PP e PR, nos quais o governo apostou algumas fichas, são legendas cujas direções não exercem controle sobre as bancadas.

Lideranças dos partidos não estão controlando os votos de seus comandados
Lideranças não estão controlando os votos de seus comandados. Foto: Luís Macedo, Câmara dos Deputados
Não se sabe quantos votos o Planalto terá do PMDB, partido reconhecido hoje como o centro do golpe e com 67 deputados. Na Comissão Especial, o partido do vice-presidente da República votou dividido: quatro pelo impedimento, três contra. O PP, quarta bancada da casa (47 deputados), também mostrou divisão, com três a favor e dois contra o relatório de Jovair Arantes (PTB-GO).

Mesmo com o desembarque do PP, o rumo de seus votos, no momento, é indefinido. A posição dos deputados do PMDB na Comissão do Impeachment mostrou isso.

Para o analista político Antonio Augusto de Queiroz, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), o governo pode contar como certos os 57 votos do PT, 11 do PCdoB, seis do Psol e quase todos os do PDT, partido que pode revelar dissidências. Contariam ainda dois da Rede, embora o partido de Marina Silva indique o voto contra o governo. Desconsiderando dissidências do PDT, o governo teria aí 96 votos. Faltariam 75 para Dilma, seja entre votos contra o impeachment, seja de abstenções ou ausentes. Queiroz diz que, hoje, o governo teria votos para barrar o impedimento na Câmara.

“Há perspectiva de o governo garimpar no PSD, nos nanicos, nos parlamentares dos partidos que não estão fechados, especialmente nos estados governados pelo PT ou PCdoB: Minas, Ceará, Piauí e Maranhão”, diz Queiroz. Segundo o analista, a negociação com os presidentes dos partidos tem se demonstrado muito pouco confiável. “Os presidentes não têm controle sobre as bancadas”, diz.

O próprio posicionamento do PP mostra isso. Embora o presidente da legenda, o senador Ciro Nogueira (PI), estivesse defendendo o voto contra o impeachment, a divisão dos votos na comissão mostra que a recomendação do líder pouco vale.

Mesmo o voto do líder do PMDB, Leonardo Picciani, que se manifestou contra o impeachment na comissão, é incerto. Consta que seu pai, Jorge Picciani, presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, e o próprio Leonardo, se reuniram com Michel Temer. O vice-presidente da República também teria se encontrado há dois dias com Ciro Nogueira, depois que este anunciou que o PP permaneceria na base de Dilma.

Outro indicativo do caráter imponderável do atual processo diz respeito ao PSD de Gilberto Kassab, ministro das Cidades de Dilma. Enquanto o chefe do partido diz que está com o governo, seu líder na Câmara e presidente da Comissão Especial, Rogério Rosso (PSD-DF), votou contra Dilma. O PSD também se dividiu na votação do colegiado: dois pelo impedimento e um contra. O PSD tem 36 votos.

Fabiano Santos, professor e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), concorda que a previsão é muito difícil, senão impossível, e que o posicionamento das lideranças não pode ser considerado como parâmetro na conjuntura extraordinária desta semana.

“As lideranças não estão controlando os votos. O calor do momento está definindo muito a opinião e a atitude dos indecisos. Tem um grupo fechado numa posição, outro na outra, e esses não vão mudar. Mas o decisivo, que é o que o governo precisa, não se sabe. Seria preciso ver qual a tendência do indeciso, que geralmente segue o líder. Isso daria um indicativo. Só que essas avaliações não estão funcionando”, diz Santos.

Para ele, “tanto pode dar um placar espetacular a favor do golpe, como um placar surpreendente em favor do governo, ou dar uma votação apertada. É difícil fazer uma previsão”.

No tabuleiro das negociações, é possível, por exemplo, que o governo não esteja conduzindo as negociações de maneira muito sábia. Ao valorizar o governador do Maranhão, Flávio Dino, do PCdoB, por exemplo, nas articulações contra o golpe, o Planalto pode estar melindrando um dos maiores aliados do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu governo, o ex-senador José Sarney, que exerce grande influência no Maranhão e no Nordeste.

Projeções

Mesmo assim, o professor e pesquisador Rogério Arantes, da Universidade de São Paulo, divulgou em sua página do Facebook algumas projeções baseadas no posicionamento dos partidos na Comissão Especial e de suas lideranças.

Segundo a projeção baseada na manifestação do líder, hoje estariam a favor do impeachment 191 deputados, contra 192 contrários, além dos 127 parlamentares de partidos cujos líderes liberaram a bancada, PMDB, PP, Pros e PHS. Já com base na própria votação da comissão, Arantes projeta 294 a favor do impedimento e 216 contra.

As projeções para esses partidos que liberaram seus deputados para votar “de acordo com sua consciência”, segundo os cálculos de Arantes, são as seguintes: PMDB, 38 a 29 a favor do impeachment. PP, 28 a 19. Pros (sete deputados) e PHS (seis) votariam unanimemente contra o governo.

Seja como for, a condução absolutamente autoritária de Eduardo Cunha, a união da mídia, setores do Judiciário e Ministério Público conspiram contra Dilma e projetam um cenário imprevisível, dependente de fatos novos. A votação ter sido marcada para domingo, e com um roteiro geográfico, começando com os votos do Sul do país, deixando os deputados do Norte e Nordeste para o fim, faz parte da estratégia de Cunha de criar um ambiente favorável ao impeachment durante a votação.

Tal roteiro, assim como o agendamento da votação para domingo, que cria condições de mobilizar as forças contra o governo, colocando em risco a população, além dos problemas do processo em si, como a falta de crime de responsabilidade, poderiam ensejar ações da base do governo no Supremo Tribunal Federal, que poderia suspender a votação em tais condições por liminar.

Isso tudo sem contar supostas ameaças. O deputado federal da Rede, Aliel Machado (PR), revelou em entrevista ao jornal Gazeta do Povo ter sido vítima de ameaça que teria partido de Eduardo Cunha, caso votasse contra o impeachment. "O Cunha falou: 'Você não vai mais andar em Ponta Grossa. O Temer vai ser presidente, você vai ver'", disse Machado.

Eduardo Maretti, Rede Brasil Atual
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