Cunha: a malandragem que pode devorar a república dos malandros

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Li o post onde Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo, mostra-se perplexo – como todos nós – em ver Eduardo Cunha ser, na prática, o homem que comanda os destinos do Brasil.

Um meliante que deveria estar no xilindró nunca esteve tão perto da presidência da República. E nada, nada, nada acontece.

Lembrei-me da frase de um astrólogo picareta da TV, que meu filho imitava, de gozação: “nada é fruto do acaso, tudo depende de você”.

Você, no caso, são as instituições que o consideraram – e ainda consideram – um instrumento político útil, por sua capacidade de criar dificuldades para o Governo.

Agora, com muito mais intensidade do que quando cobrava acordos obscuros e vantajosos do Executivo pelos votos de “sua” bancada, formada à base do dinheiro que destes próprios acertos brotava.

Quando expandiu este controle ao ponto de se constituir numa força própria no Parlamento, ofereceu-se à oposição para ser, na presidência da Câmara, o inviabilizador parlamentar do Governo Dilma. Oferta prazeirosamente aceita por um agrupamento PSDB-DEM-PPS que não tinha número para ir além de 20% da Casa.

Como também o aceitou a mídia – para promovê-lo com sua pauta conservadora e antitrabalhista – apoiada no bando de fanáticos que alimentou em seus veículos, embora alguns torcessem levemente o nariz ao fato de ser dado a fundamentalismos evangélicos.

O Ministério Público surrou como um boxeur soca um daqueles sacos de areia, conseguindo manter diante de muitos a impressão de que agia na base do “doa em quem doer” que o legitimaria para, depois, avançar sobre seus verdadeiros alvos, Lula e Dilma.

Não dói. O “saco de areia” Eduardo Cunha, como um zumbi, não sente golpes e age com a frieza de um cirurgião: sabe que, enquanto for a peça-chave do projeto de retomada golpista do poder, está imune. Usa, sem qualquer escrúpulo, seu poder regimental para fazer o impeachment voar em um mês e seu próprio processo ético arrastar-se há meio ano, sem a menor perspectiva de resolução.

Eduardo Cunha. o instrumento que todos imaginaram poder descartar depois que servisse a seus propósitos, é, porém, alguém que sabe manobrar muito bem no mundo das conspirações e chantagens.

É inacreditável, mesmo ao mais ingênuo, que vá destruir o poder conferido numa eleição presidencial sem garantir a si próprio não apenas a imunidade, mas também a continuidade do comando político que hoje detém.
Charge: Tijolaço
Os golpistas acharam que poderiam se servir – e serviram-se – de Cunha para seu projeto de retomar o poder sem voto.

E Cunha terá se deixado ser o cordeiro que, ao final, é sacrificado após a graça alcançada?

O lobo não tem lã, nem com implante. Tem presas.

Fernando Brito, Tijolaço
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