Destruir o passado para controlar o futuro

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Sofia Lorena, Público

Lisboa, Portugal. A destruição da cidade assíria de Nimrud, com 3000 anos, é apenas mais um passo na “limpeza cultural” que os jihadistas do autoproclamado Estado Islâmico iniciaram assim que começaram a conquistar território, primeiro na Síria, depois no Iraque. Para além do objectivo financeiro – o tráfico de antiguidades já é uma das mais importantes fontes de lucro para os jihadistas – e da necessidade de continuar a chocar o mundo, por trás destes ataques está a vontade de apagar a memória pré-islâmica que pertence à história colectiva da humanidade mas também faz parte do que é ser iraquiano ou sírio.

“Depois de terem assassinado o espírito, eles começaram a matar a civilização”, diz Ibrahim Daud, escritor e poeta que a AFP encontrou na Mutanabbi de Bagdad, a rua das livrarias e dos cafés onde a elite cultural da capital se reúne há séculos. “Uma civilização considerada como o orgulho do Iraque e do mundo foi apagada em apenas alguns minutos”, acrescenta o companheiro de mesa, Abel Abdullah, que trabalha no Ministério da Saúde.

Numrud
Um membro do Estado Islâmico a destruir a escultura de uma divindade assíria
É comum que iraquianos ou sírios que nunca estudaram História ou Arqueologia falem orgulhosos da sua Mesopotâmia. Sabem que são herdeiros de um património incomparável e sentem-se guardiões da História da humanidade. Na invasão do Iraque, em 2003, e enquanto alguns pilhavam o Museu de Bagdad, muitos se insurgiam com a forma como os norte-americanos usavam sítios arqueológicos como bases militares, percorrendo-os com os seus tanques, no que viam como uma falta de respeito absoluta por uma herança comum.

O Daash, como sírios e iraquianos continuam a chamar ao Estado Islâmico, nome adoptado pelo grupo desde a declaração de um califado, no Verão de 2014, quer apagar tudo o que não corresponda a visão desse estado que pretende constituir. É por isso que, apesar de matarem todos os que se lhes opõem, estes radicais têm como vítimas principais os que não são árabes sunitas, como eles, dos xiitas aos cristãos caldeus e assírios (descentes da civilização com o mesmo nome), turcomanos ou yazidis. Vendo-se como únicos herdeiros dignos do Profeta e dos seus ensinamentos, querem apagar tudo e todos que não caibam nesse retrato.

Como Muhammad ibn Abd al-Wahhab, fundador do wahhabismo, a doutrina ortodoxa do islão em vigor na Arábia Saudita, desprezam a idolatria, a superstição, a arte ou o tabaco, e defendem a doutrina de “um líder, uma autoridade, uma mesquita”. Ora o que define tanto a Síria como o Iraque é precisamente serem um mosaico construído pelas suas diferentes comunidades e pelos respectivos passados, reforçados com as expedições arqueológicas que começaram na era colonial. A história da humanidade (os lugares onde nasceram a escrita, a matemática ou a astronomia) não se aprende só nos livros da escola, está por todo o lado.

Afirmar o seu domínio

A directora da Unesco, Irina Bokova, diz que o ataque a Nimrud “mostra que nada está a salvo da limpeza cultural que em curso no Iraque: tem como alvo vidas humanas, minorias e caracteriza-se pela destruição sistemática da antiga herança da humanidade”. A semana passada, depois do vídeo em que membros e apoiantes do Daash partiam estátuas e frescos do Museu de Mossul, Bokova lembrava que esta destruição faz parte de uma “estratégia para desestabilizar e manipular as populações, para que possam afirmar o seu domínio”.

Há quem tente resistir, mas não é fácil enfrentar um grupo que decapita e queima pessoas vivas para espalhar o terror e mostrar que tudo pode. O sírio Samir Abdulac, secretário-geral do Conselho Internacional dos Museus e dos Sítios, contou ao Le Monde que alguns ainda “sacrificam a sua vida para defender o seu património”, como uma iraquiana chamada Sabrina que se indignou “na sua página de Facebook e foi capturada e decapitada”. “No Iraque, com a guerra e os bloqueios, o tecido social partiu-se”, diz Abdulac.

Lembrando que muitas revoluções na histórica purificaram o seu próprio passado, assim como a destruição dos símbolos e da memória dos inimigos aconteceu tanto nos conflitos da antiguidade como nas guerras do século XX ou XXI, o historiador Gabriel Martinez-Gros fala numa “espécie de jihad contra o passado” que é ao mesmo tempo “a reconquista de um passado, de referências, de uma língua”. “É um estado que se está a estabelecer. A partir destas destruições, como através de novos programas escolares, eles tentam impor uma verdade à escala do pequeno califado que pretendem criar”, diz Martinez-Gros, numa entrevista do Le Monde. Nesse processo, tudo o que não integre a sua ordem totalitária deve ser apagado.

“Preservar a herança histórica e cultural no Iraque enquanto berço e epicentro da nossa civilização deveria ser uma preocupação de todo o mundo civilizado”, defende, em declarações ao Guardian, David Vergili, da União Europeia Siríaca (outra palavra para assíria). Para o historiador Tom Holland, trata-se de “um crime contra a Assíria, contra o Iraque e contra a humanidade”. Como outros antes deles, sublinha Holland, os jihadistas do Daash perceberam que estes crimes são importantes para erguer um estado da natureza do que pretendem. “Destrói o passado e controlas o futuro.”
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