Para Dilma, sobre Jango

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Fernando Brito, Tijolaço

Um pouco de leitura nestes dias de Carnaval, levaram-me ao livro “Reformas de Base e a Política Nacionalista de Desenvolvimento”,escrito pelo admirado e saudoso amigo Cibilis Vianna.

Economista, mineiro e radicado no Rio grande do Sul (tal como Dilma) até estabelecer-se no Rio, como um dos principais auxiliares – e melhores amigos – de Leonel Brizola, Cibilis foi das pessoas mais coerentes com suas ideias que já conheci e, como você vai ler, resume de forma mais que atual os dilemas vividos por João Goulart após tomar posse, em 1961, enfraquecido pelo “quase-golpe” ocorrido com a renúncia de Jânio Quadros e a instauração do parlamentarismo.

É tão claro que quase dispensa comentários:
“A crise que se instalara na sociedade brasileira não era de caráter conjuntural, mas atingia a própria estrutura política e social. O Poder Executivo estava tolhido, não dispunha de poderes para agir com rapidez no campo econômico e não conseguia obtê-los pela via legislativa. (…) A composição do Congresso era conservadora, em sua maioria, e não aceitava alterações no status-quo.
“Superar a crise financeira, fazer retroceder a inflação e equilibrar as contas públicas, tudo isso seria possível realizar pelo caminho mais fácil, menos inteligente, recomendado pela ortodoxia conservadora: bastava conter os salários, restringir o crédito, eliminar os subsídios e as transferências, reduzir os investimentos públicos. Isso, porém, significaria transferir para os assalariados o ônus da solução, levar à bancarrota inúmeras pequenas e médias empresas, reduzir a demanda, fazer decair a taxa de investimento, restringir o mercado de trabalho; enfim, estancar o nível da atividade econômica em geral”
Tal política foi adotada a partir de abril de 1964, com os resultados e efeitos apontados (antes); não poderia, no entanto, ser posta em prática por um governo popular e nacionalista, vale dizer, pelo trabalhismo.”
Como se vê, em mais de 50 anos, o receituário ortodoxo para as crises econômicas não mudou, muito embora jamais tenha dado certo no longo prazo, malgrado seja, como escreveu Cibilis, o caminho mais fácil, imediato e….desastroso adiante

É evidente que não se quer dizer que ambas as situações sejam a mesma coisa: as pressões financeiras àquele tempo eram menores do que hoje e o tamanho da sociedade de consumo, menor.
Mas o governo apontou, com as reformas de base, para onde queria caminhar.

E pagou, com sua queda, menos por isso do que pagou por suas vacilações políticas, embora estivéssemos numa época de golpes, Guerra Fria e crônica insubordinação militar ao poder civil democrático, muito diferente da de hoje.

Mas é preciso que o Governo – que malbaratou em pouco tempo a força da legitimidade que as urnas lhe deram – tenha claro que é preciso que a população ao menos entenda a razão de sacrifícios momentâneos e perceba que não são todos para ela.
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