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Kucinski debate suas 'Cartas a Lula'

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Marcel Gomes

São Paulo, SP. Conhecido pelo embate interno que travou contra o chamado “paloccismo” no primeiro mandato de Lula (2003-06), o jornalista e ex-assessor especial da Secretária de Comunicação Social da Presidência (Secom) Bernardo Kucinski lamentou que o segundo mandato de Dilma Rousseff se inicie com concessões ao sistema financeiro, entre elas alta de juros e arrocho fiscal.

Bernardo Kucinski
Kucinski lamenta que o 2º mandato de Dilma se inicie com concessões ao sistema financeiro
“Não sei se é [a histórica se repetindo] como farsa, mas [é a história] do predomínio dos bancos em nosso país”, disse Kucinski na noite de quarta-feira (4), em São Paulo, ao participar de um debate promovido pela Carta Maior sobre seu novo livro, “Cartas a Lula – o jornal particular do presidente e sua influência no governo do Brasil” (Edições de Janeiro, R$ 49,90, 464 páginas).

Participaram do encontro o ex-ministro da Secom Franklin Martins (2007-10) e o ex-porta-voz do governo Lula André Singer (2003-07). A mediação coube ao jornalista e professor universitário Gilberto Maringoni.

O livro de Kucinski reúne textos diários escritos por ele com a análise dos jornais do dia e sugestões de como o Lula deveria reagir. Para redigi-los, o jornalista acordava às cinco horas da manhã, lia as publicações que haviam sido finalizadas horas antes e entregava ao presidente o boletim às sete horas. Um pequeno grupo de ministros e assessores também recebia o material.

Vistos agora, os temas tratados por Kucinski trazem um panorama sobre o primeiro mandato de Lula, com textos sobre o Fome Zero, a crise dos Correios e o Mensalão. Mas o tema que mais interessava ao jornalista era a política econômica, não só por ser economia a principal área de atuação dele quando atuava como repórter e editor, mas por se tratar do espaço em que mais claramente se manifesta a “hegemonia burguesa” em nosso país – nas suas próprias palavras.

O paloccismo, manifestado em um governo em tese dos trabalhadores, era um claro sinal disso. Ao analisar veículos que tinham a credibilidade para pautar a agenda pública, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo, Kucinski partia de um pressuposto: esses diários cumpriam sua vocação de defender os interesses da burguesia. Daí a aprovação deles às medidas do então ministro da Fazenda Antonio Palocci (2003-06).

Quando Palocci anunciou um plano de arrocho fiscal e o aumento do salário mínimo foi sacrificado, Kucinski partiu para o embate e escreveu para Lula: “Os que estimam o valor adequado do salário mínimo a partir unicamente da ótica da despesa [...] não consideram as entradas propiciadas por um mínimo maior na arrecadação”. É uma crítica que voltou a ser atual. Joaquim Levy, escolhido por Dilma para ser o ministro da Fazenda, era o secretário do Tesouro de Palocci e já anunciou diversas medidas de arrocho fiscal.

Hoje professor aposentado da USP, Kucinski foi um ativo militante da imprensa alternativa durante da ditadura militar. Sua irmã, Ana Rosa Kucinski, professora de química da USP, foi sequestrada por agentes da repressão em 1974. Desaparecida até hoje, teve sua história narrada no premiado romance “K”, lançado por Bernardo em 2012.

Com a volta da democracia, Kucinski se engajou no PT e passou a atuar próximo a Lula. Em 1993, participou das caravanas da cidadania, uma série de viagens pelo país promovida pelos petistas em preparação à campanha presidencial do ano seguinte. Foi quando começou a escrever os boletins sobre a mídia, primeiro batizados de cartas ácidas, e depois de cartas críticas.

Quando aceitou ir para o governo e incluir a atividade na rotina palaciana, tinha o projeto pessoal de ajudar o governo a vencer a batalha da comunicação, para ele uma necessidade da disputa democrática. Sua meta era reformar a comunicação do governo, vista por ele como débil.

“Quando chegamos, vimos uma estrutura de Estado gigantesca, com grande potencial, mas sem uma política de comunicação”, recordou. “Não havia quaisquer ritos para atender os jornalistas e cada ministro tinha o seu assessor de imprensa, que trabalhava para o próprio ministro e não segundo a política geral de comunicação do governo”.

Kucinski deixou Brasília ao final do primeiro mandato de Lula, manifestando frustação com os rumos do governo. “Foram anos de petismo. Eu cheguei ao governo muito autoconfiante, um sentimento que eu nunca tinha tido na vida. E logo eu, que sou conhecido como um sujeito mal-humorado. Mas, quando eu perdi esse sentimento, comecei a pensar em sair”, revelou.

Indo mais a fundo nessa reflexão, Kucinski admitiu que o governo Lula mudou o país para melhor, mas criticou a incapacidade de ter criado uma nova hegemonia para enfrentar a burguesia e seus canais midiáticos – segundo ele, por culpa do próprio PT e das organizações de base que o sustentam.

“Minha percepção é a de que nosso campo popular está sempre muito preocupado com sua luta interna. Todos os mecanismos de comunicação do PT, da CUT, da Fundação Perseu Abramo, dos sindicatos acabam se voltando para a disputa interna. As próprias direções dos veículos são definidas por disputa interna”, lamentou.

Para Kucinski, o caso da corrupção na Petrobras é paradigmático acerca da falta de vozes alternativas na imprensa. O discurso midiático atrelou ao PT as denúncias sobre a companhia, quando “se sabe que a corrupção na empresa vem de décadas, que praticamente todo contrato de obras públicas no Brasil e também em outros países financia campanhas políticas nas democracias de massa”. “Um governo precisa ter instrumentos de comunicação para fazer esse esclarecimento para a população”, afirmou.

Ao ressaltar que as forças sociais e políticas que lutam contra o neoliberalismo precisam formar uma nova maioria para avançar, o ex-ministro Franklin Martins também destacou a importância da comunicação nesse processo. “Você entra no táxi em São Paulo e escuta a CBN e a Joven Pan ´sentando a mamona´ no governo. E não se tem resposta”, criticou.

Martins lamentou o fato de que no Brasil as forças políticas progressistas que formaram maiorias “não foram capazes de criar órgãos de imprensa”. O problema persiste no governo Dilma. “Vocês perceberam que não se fala em TV Dilma como se falava TV Lula?”, ressaltou ele à plateia, referindo-se aos investimentos do governo Lula para alavancar a TV Brasil. “Isso acontece porque o governo se acomodou, não investiu mais”, afirmou.

Ao contrário de Kucinski, que aponta retrocesso neste início de governo Dilma, Martins vê o país em um novo patamar. “A Dilma não mudou de lado em dois meses. Quais são as prioridades? Não é mais três refeições por dia e pleno emprego, mas banda larga pra todos, Minha Casa, Minha Vida, e transporte público. É ali que tem de estar o subsídio”, afirmou.

Entretanto, para que se crie uma maioria social e política em apoio a essas pautas, o ex-ministro pede que Dilma fale mais. “Ela não se comunica”, criticou ele. O mesmo recado foi para o PT: “Ou o partido se transforma, ou está frito, não dá para funcionar com a lógica de seus assessores”.

Já o ex-porta-voz André Singer manifestou preocupação ainda maior com os rumos do governo Dilma. Para ele, professor de ciência política da USP e um dos intelectuais que mais produzem reflexão sobre o legado do governo Lula, as concessões feitas pela presidente ao programa neoliberal surpreendem.

“Esse conjunto de concessões feitas dez anos depois do processo em que governos foram orientados pelo que eu chamo de lulismo é preocupante, porque havia a expectativa de que ele produzisse uma correlação de forças que tornasse desnecessárias essas concessões”, ponderou Singer. Por que isso ocorreu ele admite ainda não ter resposta.

“A publicação do livro do Bernardo neste momento em que o problema retorna pode ajudar a iluminar o processo”, disse ele. “Cartas a Lula”, avalia Singer, deixa claro que a política econômica é o coração da política – “Lá eu vi que de fato é o coração” – e que concessões nessa matéria não deveriam ser aceitas.



Singer se contrapõe, assim, à análise do ex-ministro Franklin Martins. Na visão dele, mais próxima de Kucinski, ao tomar medidas econômicas que criticara no período da campanha eleitoral, Dilma cria “uma confusão na cabeça da maioria”. “Minha avaliação, então, é que não havia correlação de forças para que aquelas medidas não fossem tomadas. Se a força da burguesia continua grande, eu pergunto então: o que estamos construindo?”, questionou o ex-porta-voz.

Para Kucinski, o “fenômeno da hegemonia burguesa, da criação de sentidos, da vitória de uma proposta sobre outras não é só uma questão brasileira, mas mundial”. Nesse sentido, ele esboça uma reflexão que não poupa críticas à própria classe trabalhadora. Segundo ele, decisões tomadas pelo governo Lula ocorriam em nome de interesses corporativos, ainda que advindos dos próprios trabalhadores.

“É o caso da crise da indústria automobilística. O governo optou cortar os impostos, atendendo sua base, mas em conflito com o interesse social do povo. Nós não precisamos de mais automóveis, mas de transporte público, trem e metrô”, afirmou. É essa franqueza quase absoluta que o leitor encontrará no livro. “São cartas curtas, objetivas, sem papas na língua, sem medo de criticar o próprio governo”, explica Kucinski.
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