Morre Alexandre Grothendiek, matemático e eremita

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Público

Lisboa, Portugal. O matemático Alexandre Grothendiek morreu esta quinta-feira, aos 86 anos de idade. Antes de se retirar do mundo em 1990 – para se instalar numa aldeia do Sudoeste de França onde cultivou sempre o silêncio e o segredo absolutos –, Grothendiek desenvolveu uma visão revolucionária da geometria.

Desconhecido do grande público, era porém uma lenda entre os matemáticos. Nasceu em 1928 em Berlim, tornando-se cidadão francês em 1971. Era um espírito audaz, que não fazia concessões – uma personalidade fora de série à procura do absoluto.

Alexandre Grothendiek
Matemático Alexandre Grothendiek em fotografia de 1948
Considerado como um dos maiores matemáticos do século XX, praticava uma versão radical de ecologia política e vivia recluso, há cerca de duas décadas, na aldeia de Lasserre, para se proteger do mundo.

“Era um gigante da matemática cujos trabalhos transformaram a matemática toda. “Vários matemáticos que receberam a medalha Fields (o mais prestigiado galardão da área) tinham sido seus alunos”, disse à AFP Cédirc Villani, medalha Fields de 2010 e director do Intituto de Estudos Matemáticos Henri Poincaré, em Paris.

O próprio Grothendiek tinha sido contemplado com a medalha Fields em 1966, mas tinha recusado o prémio. Também se recusaria a aceitar, em 1988, o Prémio Crafoord da Real Academia de Ciências da Suécia, num montante de 450.000 euros, por considerar que o seu salário do Centro francês da Investigação Científica (CNRS) era mais do que suficiente…

Filho de um judeu russo, Sasha Schapiro, fotógrafo e militante anarquista, e de uma jornalista de causas, Hanka Grothendieck, o pequeno Alexandre foi confiado a um amigo da família, na Alemanha, quando os seus pais partiram para Espanha entre 1934 e 1939. No fim da Guerra Civil espanhola, vai ter com os pais ao Sul de França. Deportado, o seu pai morre em Auschwitz e ele e a mãe são internados num campo perto de Mende (França).

Tesouro científico

Em 1944, ingressa na Universidade de Montpellier. Na altura da sua tese, dois grandes matemáticos, Laurent Schwartz e Jean Dieudonné, confiam-lhe 14 problemas, que constitutem um programa de amplitude considerável, para os anos seguintes. Uns meses mais tarde, ficam deslumbrados: o jovem prodígio resolveu-os todos! Nasce assim a lenda Grothendieck.

Um outro mito ligado ao seu nome: o seu “tesouro científico" – milhares de páginas, contidas em cinco caixas de cartão, que dormem nos arquivos da Universidade de Montpellier e dos quais o matemático proíbe qualquer difusão…

Depois de ter sido professor no Brasil e nos EUA, regressa a França e entra no Instituto de Altos Estudos Científicos (IHES), que acaba de ser criado por um industrial rico. Ali, dirige um seminário de geometria algébrica, que também se tornou lendário e contribui para a construção da reputação mundial daquele instituto.

Mas este pacifista empedernido deixa o IHES, nos anos 1970, depois de ter descoberto que estava a ser financiado (muito parcialmente) pelo Ministério da Defesa.

Após uma breve passagem pelo Collège de France (prestigiada instituição académica), dá aulas na Universidade de Montpellier antes de entrar no CNRS, em 1984, onde permanecerá até ao seu retiro, quatro anos mais tarde. Corta então todas as relações com o universo científico e refugia-se nos sopés dos Pirenéus.

Para além dos seus trabalhos de geometria algébrica, uma área que revolucionou, Grothendieck é o autor do livro Récoltes et Semailles ("Colheitas e Sementeiras"), um livro do qual o matemático Denid Guedj, que morreu em 2010, dizia à revista Sciences et Avenir que se tratava de um texto “de salubridade pública, que tece um elo lúcido entre a filosofia, a matemática, as instituições e a investigação científica”.

Guedj declarava ainda, a propósito de Grothendieck: “O seu derradeiro e único acto de violência para com a comunidade científica foi o facto de ter parado de fazer matemática.”

O Presidente francês François Hollande saudou esta sexta-feira “um dos nossos maiores matemáticos” e “uma personalidade fora do comum na sua filosofia de vida”.
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