Delfim e Sarney, revolucionários

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Alberto Dines, Observatório da Imprensa

“Não há controle eficaz quando o agente acumula a função de fiscal.” Quem produziu a preciosa e sintética máxima a favor da regulação dos mercados não foi o Nobel de Economia de 2014, o francês Jean Tirole, mas o criador do nosso “milagre econômico”, hoje porta-voz do capitalismo de Estado, Antonio Delfim Netto.

Embutida no seu artigo na Folha de S.Paulo (19/11, pág. 2), com meia dúzia palavras perfeitamente dispensáveis a mais, a cintilante observação tentava ironizar a compulsão do governo e acólitos em escolher um banqueiro para desatar o nó da economia.

Dilma e Sarney
José Sarney quer transformar a presidenta numa rainha, da Inglaterra
Pensava numa direção, distraiu-se, escreveu em outra: acabou assinando uma irrefutável denúncia contra a ineficácia da autorregulação em qualquer esfera. Inclusive, por supuesto, na indústria da comunicação social. O mais sagaz cultor da arte da sobrevivência, guru em diversas tribunas da grande imprensa, confiante no poder da lógica que montou a Teoria dos Postes, tornou-se defensor da intervenção no mercado.

Mais surpreendente é a façanha do senador José Sarney de Araújo Costa, ex-presidente da República, um dos mais perseverantes parceiros civis da ditadura militar, batido fragorosamente em sua capitania por uma coligação de desafetos socialdemocratas, que foi ainda mais longe do que o correligionário.

Três dias depois da proclamação da vitória da sua candidata Dilma Rousseff, o decano do clube das raposas políticas publicou um artigo na mesma Folha (29/10, pág. 3) onde alinha todos os impasses institucionais e eleitorais (inclusive os recentes), confessa seus erros e termina oferecendo uma solução única – o parlamentarismo – à presidente mais imperial dos últimos tempos.

Outros tempos

Que espécie de Aedes aegypti picou os dois condestáveis do poder para desfraldar estandartes tão ousados? E o que ocorreu depois das surpreendentes piruetas?

Rigorosamente nada. Tudo continuou como dantes. Nossos jornalões não são lidos, ou não são entendidos, ou, o que é pior, não conseguem produzir estímulos cerebrais suficientes para gerar ações. Mesmo quando tratam das loterias do momento – o petrolão e a escolha da troika econômica.

Ninguém sonha, se indigna, ri, chora, se enfeitiça, empolga ou esperneia. O país seca, o mundo arde, a geleia no horizonte muda com velocidade impressionante, Gisele Bündchen assume seus vinte anos de carreira, Pelé suas dores reumáticas, tudo envelhece.

De repente, os tempos já não são interessantes e Lula sequer culpa a mídia por esta omissão. Grave. Gravíssimo.

Nada espanta

Nos anos 30 a 50 do século passado jornais, revistas, revistinhas, rádios, televisões e cinemas do mundo inteiro exibiam uma genial atração que encantava o público dos oito aos oitenta. Criação do americano Robert Ripley (1890-1949), cartunista, talentoso redator, showman, esportista, empresário, ornitologista amador e criador do “Believe It or Not”, em português “Acredite se quiser”.

Em cores ou P&B, sempre desenhadas e acompanhadas por textinhos cativantes, colecionava, em diferentes formatos, coisas insólitas, raras, incomuns, originais, singulares, em qualquer área do conhecimento. Febre global, inventou a interconectividade: os leitores forneciam as dicas e ele agradecia.

Ripley faz falta: nada nos espanta, surpreende ou assombra. Nem mesmo o viral que bomba nas redes sociais. Prontos para a Operação Juízo Final.

Nota do editor da Aldeia: "Não há nada mais parecido com um Saquarema (conservador) do que um Luzia (liberal) no poder", disse Holanda Cavalcanti sobre as disputas no segundo reinado. Veja o caso da presidenta Dilma. Da mesma forma: "Nada mais parecido com um liberal (democrata) do que um conservador (apoiador da ditadura militar) na oposição", Sarney e Delfim são a prova!
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