Jaldes Meneses: Quixotesco e maquiavélico

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Jaldes Meneses, Campo de Ensaio e Revista Conceito
“Pois se observa no Evangelho que, curando Cristo de todos os gêneros de enfermidades e ressuscitando todos os mortos, a nenhum doido sarou”. (Padre Antônio Vieira)
Aconteceu com as obras mais conhecidas de Nicolau Maquiavel e Miguel de Cervantes – “O príncipe” e “Dom Quixote” –, os criadores da teoria política e do romance modernos na distância dos dois fabulosos séculos de nascimento da modernidade ocidental, respectivamente 1513 e 1605 –, o fenômeno de se tornarem tão populares que viraram adjetivos. Maquiavélico tornou-se sinônimo de pessoa astuta e diabólica na luta pela conquista do poder, na qual não interessam quais os meios de alcançar determinado fim, enquanto quixotesco virou símbolo de louco sonhador de objetivos utópicos e inalcançáveis.

Parecem antônimos: o príncipe maquiavelino é autossuficiente, frio e realista, por outro lado o cavaleiro de Cervantes é dependente de devaneios e miragens inexistentes na realidade, feito o amor impossível de Dulcinea del Toboso. Michelet, historiador romântico francês, dizia a respeito de Joana D´Arc que o surpreendente na “donzela”, que logo se tornou heroína nacional francesa, não era a loucura, mas o núcleo de lucidez que se escondia no devaneio.

Um homem do renascimento como Maquiavel convivia com a loucura no mesmo espaço, inclusive a elogiava preciso fosse – lembremo-nos de, a propósito, do famoso elogio de Erasmo de Rotterdam, escrito na mesma época. Qual loucura maior que não medir esforços para atingir determinado fim? No realismo de meios e fins do príncipe se encontra acantonado a loucura, as lutas dinásticas europeias tão bem descritas por Shakespeare (Hamlet, Ricardo III, Macbeth) nada mais são que a dramaturgia da teoria política maquiavélica.

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A assepsia entre razão e desrazão era desconhecida no mundo de Maquiavel. O ponto cirúrgico aconteceu exatamente no século seguinte, e o “Dom Quixote” – a saga do cavaleiro andante deslocado do mundo – significa exatamente um desses pontos de ruptura. Não é à toa que vinte e dois anos depois de “Dom Quixote” (1637), Descartes brindava-nos com “O discurso do método”, sancionando em definitivo, através do método científico racional-moderno, a separação entre razão e desrazão, a mesma falsa assepsia da razão do trabalho de sangue e poder do Príncipe que formou esta entidade conhecida por Estado Nacional (“o mais frio e cruel dos monstros”, nas palavras de Nietzsche, o mesmo Estado que as utopias de Marx, um dia, pensou em fazê-lo desaparecer).
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