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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Espionagem: o truque sujo do atual governo da Inglaterra



Cauê Seignemartin Ameni, Outras Palavras

Há dois anos, os governos e exércitos ocidentais têm atacado furiosamente quem revela seus segredos esgrimindo um argumento básico. Mesmo quando comprovam ataque sistemático dos Estados à privacidade dos cidadãos, estas revelações seriam indesejáveis — porque colocariam em risco a vida de soldados que lutam contra “o inimigo”. Acaba de surgir um fato que demonstra a falsidade deste argumento. Num texto publicado sexta-feira passada (23/8), o jornalista Glenn Greenwald, do jornal britânico The Guardian, sugere que o serviço secreto britânico está, ele próprio, vazando segredos que podem atingir militares britânicos. Tudo para incriminar Edward Snowden.

O foco da polêmica é uma suposta base de espionagem inglesa no Oriente Médio, que seria encarregada de monitorar em massa telefonemas e comunicações via internet. Sua existência foi denunciada por outro jornal britânico, The Independent. Este, porém, atribuiu a revelação do segredo a Snowden. A autoria é falsa. Na mesma sexta, Glenn publicou, em seu blog, mensagem de Snowden, assegurando: “Jamais falei, trabalhei ou forneci qualquer tipo de material ao The Independent”.

Nesse caso, quem seria a fonte da revelação? O próprio Snowden especula: “Tudo faz crer que o governo britânico tenta criar a impressão de que as revelações publicadas no Guardian (…) seriam danosas. Para ‘demonstrá-lo’, vaza para o The Independent informação intencionalmente danosa, atribuindo-a a outros”.

Ao que tudo indicada, os governos tentarão acuar cada vez o jornalismo investigativo pós-wikileaks. Se os jornalistas não são intimidados por portar material confidencial — mesmo que seja de enorme interesse publico –, são acusados de colaborar com os inimigos “terroristas”. Mas o que fazer quando o próprio Estado alimenta o terrorismo para defender seus interesses?

Leia abaixo a tradução na integra da matéria.

Edward Snowden denuncia: serviço secreto começou a vazar seu próprios
segredos, para jogar opinião pública contra quem denuncia vigilância

Snowden: “Governo britânico está vazando segredos dele mesmo!”


Glenn Greenwald, The Guardian (24/8/2013) | Tradução: Vila Vudu

O jornal Independent publicou matéria hoje – cujo conteúdo, como o jornal diz repetidas vezes, viria de “documentos obtidos da Agência Nacional de Segurança dos EUA por Edward Snowden” – na qual revela que “britânicos dirigem uma estação secreta de monitoramento no Oriente Médio para interceptar e processar vastas quantidades de e-mails, chamadas telefônicas e tráfego na web a serviço de agências de inteligência ocidentais.” É a primeira vez que o Independent publica qualquer revelação supostamente extraída de documentos da ASN-EUA, e esse é o tipo de ‘revelação’ que os jornalistas que trabalham diretamente com Edward Snowden têm cuidadosamente evitado até o momento.

A pergunta óbvia é: quem é a fonte dessa ‘revelação’? Hoje cedo, Snowden disse que quer deixar bem claro que a fonte do Independent não é ele:
Jamais falei com, trabalhei com, ou forneci qualquer tipo de material jornalístico ao jornal The Independent. A meu pedido, todos os jornalistas com os quais trabalhei têm sido criteriosos e têm cuidado atentamente para que só se revelem informações que devam ser de conhecimento público e que não ponham em perigo nenhuma pessoa e nenhum local. Pessoas em todos os níveis da sociedade até e inclusive o presidente dos EUA reconheceram a contribuição desse critério e desse cuidado com as revelações, para um necessário debate público, e muito nos orgulhamos de que sempre tenha sido assim.
Tudo faz crer que o governo britânico tenta agora criar a impressão de que as revelações publicadas no Guardian e no Washington Post seriam danosas. Para ‘demonstrá-lo’, vaza para o The Independent informação intencionalmente danosa, atribuindo-a a outros.
O governo britânico tem de explicar o raciocínio que o levou à decisão de vazar informação que, se fosse vazada por cidadão privado, o governo britânico processaria o vazador por prática de ato criminoso.”
Em outras palavras: exatamente quando há grande escândalo contra a exploração abusiva e ilegal, pela Grã-Bretanha, de sua ‘Lei para o terrorismo’ [orig. Terrorism Act] – com a opinião pública contra o uso dessa lei para deter David Miranda –, e exatamente quando o governo britânico tenta convencer um tribunal de que haveria graves perigos à segurança pública naqueles documentos, aí, repentinamente, aparece num jornal o tipo de vazamento ‘perfeito’ que serve ao argumento do governo britânico, mas jamais aconteceu.

A sede da GCHQ, nos arredores de Cheltenham
Isso é o que Snowden faz questão de deixar bem claro: apesar da tentativa, pelo Independent, de fazer crer que assim seja, ele, Snowden, não é a fonte em que se baseia a matéria hoje publicada. Assim sendo, quem é a fonte?

O governo dos EUA já várias vezes usou essa tática: atacar agressivamente os que revelem informação incriminante ou embaraçosa sobre o governo, em nome de proteger a santidade da informação sigilosa, enquanto, ao mesmo tempo, o próprio governo vaza fartamente informação secreta, sempre que o vazamento serve aos seus interesses políticos.

Outra questão a discutir, sobre o artigo do Independent: ali se sugere fortemente que haveria algum acordo para restringir a publicação em curso, pelo Guardian, de documentos da Agência Nacional de Segurança. Falando em meu próprio nome, quero deixar bem claro o seguinte: Não firmei, não tenho conhecimento e não estou submetido a nenhum tipo de acordo que imponha qualquer limitação ao tipo de divulgação que estou dando àqueles documentos. Jamais, em nenhum caso, aceitaria quaisquer limitações. Como já disse várias vezes, táticas de abuso e de intimidação, do tipo a que todos assistimos essa semana, não me deterão no trabalho que estou fazendo e não deterão os que estão trabalhando comigo. Estou trabalhando pesado em várias novas matérias sobre a Agência de Segurança Nacional e pretendo publicá-las no momento em que estiverem concluídas.

Questão relacionada a essa

A todos, na mídia e fora dela, que argumentam que a posse e transporte de informação secreta seja crime: Estão dizendo que acreditam que não só Daniel Ellsberg cometeu crime, mas também todos os repórteres e editores do New York Times também cometeram crime sempre que receberam, possuíram, transportaram e publicaram as milhares de páginas de documentos top-secret conhecidos como “Papéis do Pentágono”?

Creem também que o Washington Post cometeu crime quando recebeu e publicou informação top-secret de que o governo Bush mantinha uma rede de ‘buracos negros’ da CIA pelo mundo, ou quando o New York Times revelou, em 2005, o programa top- secret pelo qual a Agência de Segurança Nacional dos EUA criara um programa de escuta clandestina sem autorização judicial para espionar cidadãos norte-americanos?

Ou estamos ante alguma espécie recém inventada de padrão de criminalidade que só se aplica às nossas matérias sobre a Agência Nacional de Segurança? Será que os profissionais da mídia que pregam que possuir ou transmitir informação sigilosa seria crime realmente não compreendem o precedente que estão construindo contra o jornalismo investigativo?

Notas do Glenn Greenwald:
a) Oliver Wright, do Independent, acaba de tuitar o seguinte: “Para conhecimento de todos: o Independent não foi ‘vazado’ nem ‘conversado’ pelo governo, para publicar a matéria de capa de hoje.”

b) Deixando de lado o fato de que a matéria do Independent cita como fonte “um alto funcionário de Whitehall”, ninguém disse que teriam sido ‘conversados’ para publicar coisa alguma. A questão é: a informação não partiu de Snowden nem de qualquer dos jornalistas com os quais ele trabalha e trabalhou. O Independent revelou informação secreta – bastante significativa – sem informação sobre a fonte. Viram os documentos? Nesse caso, dado que não lhes foram entregues por Snowden nem pelos jornalistas com quem Snowden trabalha, que lhes deu acesso a eles? Não me interessa, evidentemente, que identifiquem suas fontes, mas é indispensável alguma indicação sobre o que daria fundamento àquelas revelações, porque, pelo próprio conteúdo, são informações que só valem pelo valor da fonte. Deve-se supor que não publicariam informação daquela gravidade sem ver os documentos ou sem alguma confirmação de alguém que os tivesse visto. O número de pessoas que poderiam ter visto documentos com aquele conteúdo é muito restrito e inclui, evidentemente, o próprio governo britânico.

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Deu na mídia tradicional

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